Agro: PIB, desafios e perspectivas

admin
2 Jun, 2026
Conversamos com Antonio da Luz, economista-chefe da Ecoagro, sobre o resultado do Agro no 1T26 e as suas perspectivas para os próximos trimestres. Qual a sua avaliação sobre o PIB do Agro no 1T26? O Agro tem segurado o rojão nos últimos anos, em especial no ano passado, quando cresceu 11,7%. Depois de um crescimento com essa robustez, o desafio do setor passa a ser se manter. Isso porque o Agro depende de uma série de fatores para garantir a produção, sendo que PIB é a contabilidade de produto. O crescimento de 1,1% registrado no 1T26 em relação ao 4T25, vem em linha com a expectativa para o ano dada a safra esperada. Não há dúvida de que a safra de verão vai rolar, mas a safra de milho e a safra de inverno podem sim, eventualmente, ter alguma perda. Por ora, além do Agro estar mantendo a atividade em relação ao ano passado, ele também está crescendo um pouco. O desempenho do agro em 2025 pode se repetir em 2026? Não existe nenhuma chance de isso acontecer. Em 2024, nós tivemos uma safra de pouco mais de 290 milhões de toneladas, e em 2025, uma safra de 350 milhões de toneladas. Foram mais de 50 milhões de toneladas a mais, sendo que não há sustentabilidade para se colocar 50 milhões de toneladas a mais por ano. Nós não temos infraestrutura para crescer nesse ritmo, como rodovias, ferrovias, hidrovias, portos e armazéns. É por isso que o ritmo de 2025 foi episódico. Vale ressaltar que mesmo que tivéssemos infraestrutura, nós não teríamos crédito para dar marcha a esse volume de crescimento. Como o objetivo do setor para este ano é o de manter o número do ano passado, o crescimento registrado no 1T26 está ótimo, sendo que a nossa projeção para 2026 é de um crescimento de 1,8%. Cabe ressaltar que nos últimos quatro trimestres, enquanto o Agro cresceu 7,5%, a Indústria cresceu 1,3%, Serviços, 1,8%, e o PIB como um todo, 2%. Nem a China cresceu 7,5%. Apesar de todas as dificuldades e problemas, o Agro está conseguindo ter produto. Como você está vendo a questão do Super El Niño? O El Niño é um fator que preocupa bastante o Agro, mas o setor já enfrentou vários Super El Niños no passado, da mesma forma que várias Super La Niñas. Diante dessa situação, nenhum produtor brasileiro vai deixar de plantar por causa do Super El Niño, mas sim se adaptar. Isso porque se os produtores tivessem parado de plantar toda vez que houvesse um Super El Niño ou uma Super La Niña, nós teríamos ficado vários anos sem plantar. O ponto é que El Niños, La Niñas, Super El Niños e Super La Niñas fazem parte do processo. Um Super El Niño pode causar o que aconteceu no Rio Grande do Sul em 2024, pois ele é uma condição necessária para que haja um evento extremo, mas ele não é condição suficiente para que isso aconteça. O El Niño de 2024 fez todo aquele estrago, mas ele foi menor que o Super El Niño de 2015. Segundo os especialistas, para que haja um evento como o ocorrido em 2024, não basta apenas que haja uma Super El Niño, mas sim uma série de fatores que precisam estar alinhados, sendo que isso é muito difícil de acontecer. É por isso que esse tipo de evento ocorre a cada 80 anos. Como empresa, a nossa preocupação é se as pessoas que estão debaixo das nossas estruturas estão tomando as medidas que devem ser tomadas em um ano de El Niño, como, por exemplo, escolher melhor o momento de plantar. Isso porque, se o produtor plantar exatamente na mesma época em que ele planta, existe a chance de ele ter que replantar por falta de umidade. Neste caso, o custo de produção aumentaria, o que poderia, consequentemente, diminuir ou eliminar a sua margem. No sul, que tem excesso de chuvas, nós temos que verificar se os produtores estão cuidando das suas drenagens. Independente disso, nenhum produtor vai deixar de plantar por causa do Super El Niño. A minha preocupação é que tem muita gente tratando o Super El Niño como se fosse um apocalipse, o fim do mundo. Como se os produtores tivessem que deixar de plantar, sendo que isso não existe. Qual a sua avaliação sobre a dicotomia entre o desempenho do setor e a situação dos produtores? Nós estamos vendo um massacre do Agro desde 2024, quando algumas instituições financeiras passaram a entregar resultados que não têm agradado seus acionistas. Esses resultados foram convenientemente colocados na conta do Agro, já que, naquele momento, estava havendo um aumento na inadimplência e nos pedidos de recuperação judicial do setor. O ponto é que o Agro está passando por um momento de dificuldade apesar do crescimento do PIB do setor. É importante esclarecer que PIB é uma medida de produto, e não de margem ou de lucro, ou seja, ele não mede a saúde financeira das pessoas que fazem o Agro, já que ele é a soma dos valores adicionados. O que me chama a atenção é que muitas pessoas que atribuem uma crise ao Agro não falam que nós temos 88,3 milhões de adultos inscritos no cadastro negativo do Serasa, o que dá 49,7% da população adulta. Ou seja, para cada brasileiro adimplente, há um inadimplente, o que é um escândalo. O Agro está enfrentando uma inadimplência muito alta, cerca de 7,5%, mas a quantidade de empresas inscritas no Serasa está 80% maior do que no topo da pandemia, quando um grande conjunto de empresas passou por um momento muito difícil por conta da impossibilidade de manter a normalidade de suas operações. Veja que os dados de pessoas físicas e jurídicas são absolutamente alarmantes. Por conta do cenário que estamos vivendo, o Agro está enfrentando uma alta inadimplência e está tendo dificuldades para fechar suas margens, mas isso não é exclusivo do setor, pois a economia inteira está assim, já que o Brasil está vivendo a maior crise de crédito desde, pelo menos, o início do Plano Real. Enquanto o PIB do país dobra a cada 30 anos, o PIB da Indústria a cada 52 anos e o PIB de Serviços a cada 28 anos, o PIB do Agro dobra a cada 20 anos. Um setor que cresce a taxas como a de 2025, 11,7%, tem como um dos seus principais fatores de crescimento o crédito. Não há como o Agro expandir a essas taxas sem que ele se alavanque. Quando se tem um modelo de crescimento e de posicionamento com essas características, não há como o Agro não sair machucado da imensa crise de crédito que atinge o país. O setor vai precisar de 2, 3 anos para se adaptar a escassez de crédito que o país vive. A situação dos produtores pode comprometer o desempenho do agro nos próximos trimestres? Pode, mas isso não seria para os trimestres de 2026, pois eles já estão contratados, mas sim para 2027. Por exemplo, a nossa grande variável de crescimento é o crédito, sendo que nós vivemos uma imensa crise de crédito derivada, principalmente, do patamar que a Selic atingiu. Do valor que o governo anuncia no Plano Safra, 75% são recursos livres, ou seja, de instituições financeiras que emprestam o seu dinheiro, do seu jeito e com os juros que elas e os produtores se acertam. Se o governo está pagando 13%, 14% por uma LTN, é evidente que uma operação de crédito rural vai sair de 20% para cima, o que é muito caro. Com isso, nós tivemos uma tempestade perfeita: a Selic subiu, os preços baixaram, a inadimplência aumentou e a 4966 mexeu muito nas condições creditícias dos produtores. Esse conjunto de situações trouxe uma piora no crédito para o Agro, mas, de novo, esse problema não é só do Agro, pois o Brasil vive uma crise de crédito. É preciso analisar os motivos pelos quais o Brasil possui juros tão altos, mas essa é uma outra discussão. Além da questão do clima e do crédito, você vê mais alguma casca de banana no caminho do Agro? A guerra no Oriente Médio, além de ter trazido o petróleo para um patamar mais alto, está gerando inflação. No Brasil, o IPCA está subindo e as expectativas estão desancorando. Nos Estados Unidos, o PPI (Producer Price Index) já está em quase 6%, e o CPI (Consumer Price Index) já está indo para 4%, o dobro da meta para a inflação dos Estados Unidos, com o FedWatch mostrando que o Fed vai subir os juros neste ano e com vários membros do Fed falando o mesmo. Isso tudo mostra que nós temos um cenário em que a Selic não vai cair tanto quanto gostaríamos. O ponto é que o alimento encarece quando o petróleo sobe, já que a produção, o transporte da fazenda até a indústria, a industrialização, o transporte da indústria até o centro de distribuição e do centro de distribuição até o varejo ficam mais caros, o que gera um efeito de bola de neve na inflação. Logicamente, isso não é apenas com o Agro, mas o setor precisa ter cuidado para não pisar nessa casca de banana. O post Agro: PIB, desafios e perspectivas apareceu primeiro em Monitor Mercantil .