Trump transforma Copa em seu novo reality show para melhorar popularidade

admin
11 Jun, 2026
Trump transforma Copa em seu novo reality show para melhorar popularidade Resumo O pontapé inicial da Copa do Mundo acontece hoje no México, às 16h, mas todos os olhos estão voltados para os Estados Unidos. Bem-vindo à Copa de Donald Trump, o maior reality show do planeta. O apresentador é o presidente dos EUA. E ele não gosta de dividir holofotes —nem com o presidente da Fifa, Gianni Infantino, que viu em Trump a chance de aumentar os bilhões arrecadados pela entidade no evento. Trump gosta de jogar com suas regras. Mas, como em muitos reality shows, algumas são inventadas durante o programa. Antes de ser presidente, Trump passou 14 temporadas à frente de "O Aprendiz", o reality em que executivos disputavam uma vaga em sua empresa. Aprendeu, naquele estúdio, que o apresentador precisa ser a alma de qualquer programa. E que o drama importa tanto quanto o resultado. A Copa do Mundo, que também terá partidas no Canadá, é mais uma de suas grandes produções. "Trump compreende há muito tempo o poder do esporte e do espetáculo", diz Jules Boykoff, professor de ciência política da Pacific University e autor do recém-lançado "Red Card: The 2026 World Cup, Sportswashing and the Fifa Greed Machine" ("Cartão Vermelho: A Copa de 2026, o banho esportivo de imagem e a máquina gananciosa da Fifa", sem edição em português). Ex-jogador da seleção olímpica dos EUA, ele é direto: "Quanto menor fica sua taxa de aprovação, mais motivado Trump se sente a se agarrar ao esporte como bote salva-vidas político". A popularidade do republicano nunca foi tão baixa: 62% dos americanos o desaprovam, segundo pesquisa Washington Post-ABC News-Ipsos de maio —o pior número de seus dois mandatos. Na última segunda, ele foi vaiado ao assistir a um dos jogos das finais da NBA, em Nova York. No Brasil, antes de um amistoso entre a seleção feminina e os EUA no estádio do Corinthians, a torcida xingou o presidente durante o hino americano. Para um showman acostumado a altos índices de audiência e aplausos, a temporada de 2026 está fraca. Agora, a Copa é sua nova aposta. Conquistando Infantino O episódio piloto da série começou em 2018, quando os Estados Unidos disputavam com outros países o direito de sediar a Copa de 2026. Trump mobilizou seu manual clássico. Escalou Robert Kraft, bilionário dono do New England Patriots e amigo de décadas, como principal lobista junto à Fifa. Escreveu cartas pessoais para os dirigentes da entidade e prometeu a Gianni Infantino, presidente da Fifa e o outro grande showman desta história, que este seria o maior torneio da história do mundo. Infantino topou o projeto. Faz sentido: ele quer arrecadar US$ 11 bilhões só com esta edição. "Não me surpreenderia se conseguisse mais. Seria mais do que qualquer outro evento esportivo na história", diz Boykoff. Segundo o colunista do UOL Rodrigo Mattos, a previsão é correta: a Fifa já calcula uma arrecadação de mais de US$ 13 bilhões. Para o presidente da Fifa, Trump era o parceiro de produção ideal —alguém que entende que escala e espetáculo vendem. A prova de que os dois falam a mesma língua veio numa tarde do ano passado, no Salão Oval. Infantino entregou a Trump o troféu da Copa —o mesmo erguido por Dunga em 1994 e por Messi mais recentemente— e disse: "Essa é só para vencedores, mas como você é um deles, você também pode pegá-la". Trump segurou a taça, examinou e perguntou, sem cerimônia: "Posso ficar com ela? Não vou devolver. Ficaria ótimo ali na parede, abaixo dos anjos". As regras da casa Participar do show de Trump custa caro, e ele mesmo sabe disso. Para acompanhar essa Copa, os torcedores precisam passar pelo processo de seleção mais rigoroso da história do torneio. Ingressos custam entre US$ 1.500 e US$ 2.000 em média (R$ 7.800 a R$ 10.400) —contra os US$ 58 de 1994, hoje equivalentes a pouco mais de US$ 130 (R$ 675). A Fifa adotou pela primeira vez tarifas dinâmicas, ajustadas por oferta e demanda, como é comum nos grandes eventos americanos. Um ingresso para o Super Bowl pode custar entre US$ 4.000 e US$ 20.000 (R$ 20,8 mil a R$ 103,8 mil). A Copa, agora, joga nessa mesma liga. Para quem vem de fora, o custo total —entre visto, viagem, hospedagem, transporte e ingressos— pode chegar facilmente aos US$ 50 mil (R$ 259,6 mil). "Nos estádios veremos americanos e visitantes de classes sociais altas, que são os únicos capazes de bancar isso", diz Ariel Ruiz, analista sênior do Instituto de Política Migratória, em Washington. O público do reality foi cuidadosamente selecionado. Cidadãos de mais de 50 países enfrentam ainda uma exigência extra para obter visto: um depósito caução entre US$ 5.000 (R$ 26 mil) e US$ 15.000 (R$ 77,9 mil) por pessoa, devolvido apenas após a saída do estrangeiro do território americano. Venezuela, Nicarágua e Cuba estão na lista. Quanto aos 39 países sob "travel ban" —que impede a concessão de vistos aos EUA—, incluindo quatro seleções na Copa (Costa do Marfim, Haiti, Irã e Senegal), seus torcedores foram eliminados antes da estreia. Não puderam nem sequer considerar a viagem ao país. Questionado sobre os preços dos ingressos, Trump foi característico: "Eu certamente gostaria de estar lá, mas também não pagaria por isso, para ser sincero". Mas o apresentador, claro, não precisa comprar ingresso para o seu próprio programa. "Viajantes legítimos" Omar Abdulkadir Artan chegou aos Estados Unidos na última segunda com um passaporte diplomático e uma convocação oficial da Fifa. Árbitro da Somália, ele havia sido escalado para apitar jogos da Copa. Foi deportado assim que desembarcou. No último sábado, ao chegar ao aeroporto de Chicago, o jogador iraquiano Aymen Hussein passou por sete horas de interrogatório antes de ser autorizado a entrar no país. A seleção do Irã —em guerra com o anfitrião— ficará hospedada em Tijuana, no México, cruzando a fronteira horas antes dos jogos, que fará em território americano. Na mesma semana, Holanda e Uzbequistão fizeram um amistoso nos EUA. O time laranja saiu vitorioso, mas o destaque foi outro: toda a comissão uzbeque passou por uma revista rigorosa ao chegar no estádio, com detectores de metais e até cães farejadores. A equipe holandesa entrou no estádio sem maiores problemas. "Há uma assimetria clara na política imigratória dos EUA", diz Ruiz. "Europeus entram sem dificuldades. A maior parte das restrições recai sobre países da Ásia e da África." Consultado sobre o processo de concessão de vistos para a Copa do Mundo, o Departamento de Estado afirmou ao UOL que não alterou as regras, apesar das críticas envolvendo restrições de acesso à Copa, e que não disponibiliza o número de entradas de estrangeiros autorizadas para o torneio. Disse ainda que mobilizou mais de 600 funcionários consulares adicionais para processar vistos, "mantendo os mesmos padrões rigorosos de segurança", e que os EUA estão "bem preparados para receber viajantes legítimos de todo o mundo". E o ICE? O uso do termo "viajantes legítimos" não é por acaso: o governo Trump trabalha para impedir que a Copa funcione como uma porta para imigrantes indocumentados, especialmente da América Latina. A gestão republicana tem feito entre 30 mil e 40 mil deportações em média, por mês, por meio de operações de fiscalização do ICE, sigla em inglês para Agência de Imigração e Controle de Alfândega dos EUA. Mas o ICE fará operações de deportação nos estádios durante a Copa? A resposta oficial é não. "Não haverá ações de deportação nos estádios e arredores", disse ao UOL o tenente-coronel Doug Lemanowicz, vice-comandante de segurança da Copa para Nova York e Nova Jersey, sede da final e base da seleção brasileira. "Estamos aqui para proteger os torcedores e o evento." O ICE confirmou que participará das operações de segurança, mas disse que visitantes legais "não têm com o que se preocupar". Especialistas concordam que operações de imigração seriam uma dor de cabeça para o espetáculo de Trump. "As ações do ICE geram imagens fortes e dramáticas. Isso traria uma controvérsia desnecessária para um presidente que quer usar o evento para projetar poder e grandiosidade —não drama", avalia Aaron Kall, diretor do programa de debates políticos da Universidade de Michigan. Boykoff relembra o que já aconteceu em Copas passadas. "Líderes controversos historicamente suspenderam suas ações mais truculentas durante Copas realizadas em seus países. Foi assim com Mussolini, na Itália de 1934, e com a junta militar argentina de 1978." Trump é esperado na final da Copa, em 19 de julho, em Nova Jersey. Não será uma estreia no formato: no ano passado, esteve na final do Mundial de Clubes, em que o Chelsea derrotou o Paris Saint-Germain, e fez questão de permanecer no centro do palco enquanto os jogadores levantavam a taça. Numa cena que viralizou nas redes, embolsou uma medalha entregue pelo chefão da Fifa —o que gerou acusações de furto, embora se tratasse de um presente. Meses depois, em dezembro, Infantino agraciou Trump com algo maior do que a medalha que foi parar em seu bolso: criou um inédito Prêmio da Paz da Fifa e o concedeu ao presidente dos EUA, logo após ele ser preterido pelo tão sonhado prêmio Nobel da Paz, e logo antes de Trump lançar ações militares na Venezuela e no Irã. Agora, Trump quer mais que uma medalha ou um prêmio inventado de última hora: ele quer erguer a taça. E no final da Copa de 2026, o republicano deve tentar, mais uma vez, roubar a cena. Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. 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