Lecar é suspensa do Mover após prometer carro nacional e fábrica milionária
11 Jun, 2026
Resumo A Lecar, startup brasileira que promete produzir carros híbridos no Espírito Santo, foi suspensa do Mover, principal programa federal de incentivo à inovação e descarbonização da indústria automotiva. Criado para substituir o Rota 2030, o Mover prevê R$ 19,3 bilhões em créditos financeiros entre 2024 e 2028. Esses créditos podem ser usados por empresas habilitadas para abater tributos federais, desde que haja contrapartidas em pesquisa, desenvolvimento, inovação e novos projetos de produção. Estar habilitado no programa é relevante porque reduz o custo tributário de projetos industriais e tecnológicos. Para uma empresa que ainda tenta sair do papel, como a Lecar, a habilitação também funciona como uma espécie de chancela regulatória diante de investidores, fornecedores e potenciais parceiros. A suspensão da Lecar consta da Portaria SDIC/MDIC no 146, de 2 de junho de 2026, publicada no Diário Oficial da União em 3 de junho. Segundo o ato, a habilitação da empresa no Programa Mobilidade Verde e Inovação fica suspensa desde 1o de maio de 2026. Em resposta ao UOL Carros, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços informou que a suspensão ocorreu porque a Lecar não apresentou o Relatório de Execução de Projetos de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação, relativo ao ano-calendário de 2024, por período superior a três meses após o encerramento do prazo regulamentar. Segundo o MDIC, o prazo original para apresentação desse relatório terminou em 31 de janeiro de 2026, conforme a Portaria MDIC no 192/2025. A suspensão permanece em vigor até a regularização da obrigação pendente. A Lecar, porém, afirmou à reportagem que está dentro do prazo para enviar documentação ao governo. A empresa encaminhou ao UOL Carros um e-mail da Coordenação de Implementação e Fiscalização de Regimes Automotivos, enviado no último dia 3 de junho, informando que, excepcionalmente para o ano-base 2024, o Relatório Anual de Acompanhamento do Mover poderá ser apresentado até 30 de junho de 2026. O MDIC esclareceu que esse e-mail trata de outro documento do programa. "O e-mail enviado pela Coordenação de Implementação e Fiscalização de Regimes Automotivos em 03/06/2026 diz respeito a outro relatório do Programa Mover, cujo prazo para envio encerra em 30 de junho de 2026", informou a pasta. Na prática, o documento citado pela Lecar para afirmar que ainda estava dentro do prazo não é o mesmo que motivou a suspensão da habilitação da empresa no Mover. Em entrevista ao UOL Carros, Flavio Figueiredo, fundador da Lecar, disse que a empresa não havia conseguido entregar o relatório porque "não tinha canal" para isso. "Em nenhum momento a gente teve nenhuma notificação da parte deles, nenhuma", afirmou. Do primeiro anúncio aos adiamentos A suspensão ocorre em um momento delicado para a Lecar, que começou a anunciar seu primeiro carro em 2022 e, desde então, já mudou algumas vezes o cronograma de lançamento e produção. O projeto original era de um carro elétrico brasileiro, o Model 459, um cupê. Depois, a empresa passou a trabalhar com a proposta de um híbrido do tipo range extender, em que o motor a combustão funciona como gerador de energia para alimentar o conjunto elétrico de tração. Atualmente, no site oficial da marca, a produção aparece prevista para agosto de 2027, tanto do 459 quanto da picape Campo, que seria uma concorrente para a Fiat Strada. A nova data contrasta com previsões anteriores de início da produção em 2026 e com o plano apresentado ao governo no processo de habilitação ao Mover. No pedido enviado ao MDIC em setembro de 2024, a Lecar apresentou um projeto de fábrica em Sooretama (ES), com R$ 870 milhões em investimentos vinculados, geração de 1.300 empregos e capacidade declarada de produção de 120 mil unidades por ano. O projeto tinha duração prevista de 24 meses. Apesar da dimensão do projeto apresentado ao governo, a fábrica ainda não está construída. Ao UOL Carros, Figueiredo reconheceu que a Lecar ainda não tem "nenhum tijolo" erguido na unidade. Segundo ele, a empresa está na fase de liberação de licenças e documentação do terreno. "O processo não é simples. Apesar de a fábrica ainda não ter um tijolo, estamos três anos à frente de qualquer empresa que comece hoje. Até que você escolha um terreno, regularize o terreno, pague as licenças ambientais... é terrível, muito demorado", disse o fundador da Lecar. "A gente está nessa fase da licença ambiental." Figueiredo afirma que a empresa já investiu cerca de R$ 60 milhões no projeto desde sua criação, em 2022. Segundo ele, os gastos incluem desenvolvimento, consultorias, engenharia, estudos ambientais e preparação do projeto industrial. O executivo diz ainda que o carro está na "reta final do protótipo funcional". A previsão, segundo ele, é que o veículo comece a rodar em testes em julho. "A gente acredita que até julho já está com ele na rua funcionando", afirmou. A apresentação de um protótipo funcional do 459, no entanto, estava prometida para o Salão do Automóvel de São Paulo, que aconteceu em novembro do ano passado. Incentivos viraram trunfo para atrair parceiros Além do Mover, a Lecar tenta usar incentivos regionais e estaduais como argumento para atrair parceiros industriais ao Espírito Santo. Na entrevista, Figueiredo citou três frentes de incentivo: Mover, Sudene e Invest-ES. A Sudene concede benefícios fiscais a projetos de instalação, modernização, ampliação ou diversificação de empreendimentos localizados em sua área de atuação. O principal deles é a redução de 75% do Imposto de Renda da Pessoa Jurídica pelo prazo de dez anos, desde que o projeto seja aprovado e cumpra os requisitos exigidos. No caso do Espírito Santo, parte dos municípios do norte do estado está dentro da área de atuação da Sudene. Sooretama, onde a Lecar pretende instalar a fábrica, está entre os municípios capixabas incluídos nessa área. Já o Invest-ES é o programa estadual de incentivo ao investimento no Espírito Santo. Segundo o governo estadual, o programa tem como objetivo estimular expansão, modernização e diversificação dos setores produtivos, além de atrair investimentos, melhorar a competitividade e gerar emprego e renda. Figueiredo afirma que a Lecar está aprovada no Invest-ES e que o benefício reduziria a carga de ICMS em suas vendas. Esses incentivos são relevantes porque a proposta atual da Lecar não se limita mais à produção de modelos próprios. A empresa tenta transformar a futura fábrica em uma estrutura compartilhada, capaz de receber parceiros estrangeiros interessados em montar veículos no Brasil em menor escala. Em busca de chinesas A busca por parceiros estrangeiros se intensificou depois que o cronograma da fábrica atrasou. Figueiredo afirma que a Lecar tem conversas em andamento com empresas chinesas e que pretende receber representantes dessas companhias no Espírito Santo. A ideia, segundo ele, é começar a vender veículos importados da China, em regime CBU, e avançar depois para operações em CKD ou SKD, antes de uma eventual produção local mais completa. "A gente vai começar a produzir na China, vai trazer CBU, depois CKD, depois SKD, depois fabricar aqui", afirmou o executivo. Segundo ele, a proposta é formar ao menos três parcerias nesse modelo, envolvendo automóveis de passeio, caminhonetes e utilitários. Modelo de venda é questionado Apesar de o carro não estar pronto, a modalidade de "Venda Programada" adotada pela Lecar oferece o modelo híbrido 459 em parcelas fixas de até 72 meses, sem juros, prometendo a entrega do carro na metade do contrato. Para acelerar o caixa, a startup também criou uma rede de "Executivos Lecar", que pagam uma taxa de adesão para revender os planos. A Lecar chegou a abrir concessionárias mesmo sem um produto homologado. No entanto, o sistema opera em uma zona cinzenta legal: o modelo usa regras semelhantes a consórcios e títulos de capitalização, mas a fabricante não possui as licenças obrigatórias do Banco Central ou da Susep para captar esses recursos do público. Essa engenharia comercial acendeu o alerta em Brasília e virou alvo de investigação formal do Ministério Público Federal. Na Nota Informativa SEI no 671/2026/MF, o Ministério da Fazenda apontou "características compatíveis com pirâmide financeira" devido à falta de lastro real, uso de gatilhos psicológicos e ausência de homologação dos veículos. Questionado pelo UOL Carros, o fundador da Lecar, Flávio Figueiredo Assis, rebateu as suspeitas afirmando que "não tem cliente reclamando" e que os valores estão protegidos. Ele alega sofrer perseguição de mercado, mas admitiu que o desgaste das denúncias já provocou prejuízos práticos: a chinesa Shineray desistiu de assinar a parceria industrial para produzir na fábrica do Espírito Santo. Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL.