Como um cientista que ajudou na vacina da covid agora é acusado de contrabando de material biológico

admin
11 Jun, 2026
Surto de ebola no Congo: quais os riscos para o Brasil e o mundo? A OMS já declarou que o surto é uma emergência de saúde pública de importância internacional. Crédito: Estadão Gerando resumo O pesquisador holandês de vírus, Dr. Vincent Munster, que foi homenageado por sua contribuição para o desenvolvimento da vacina contra a COVID-19, agora se encontra sob suspeita de investigadores federais dos EUA. O especialista em vírus foi acusado de conspiração para contrabandear frascos contendo mpox inativado e outros materiais biológicos para os Estados Unidos em janeiro, de acordo com uma denúncia criminal divulgada na semana passada. Munster, de 53 anos, é chefe da seção de ecologia viral do Rocky Mountain Laboratories, um centro dos Institutos Nacionais de Saúde (NIH), em Montana. Um assistente de pesquisa, Claude Kwe, de 38 anos, natural de Camarões, que viajava com Munster, também foi indiciado. Os dois foram presos por funcionários da alfândega no aeroporto de Detroit após trabalharem na República do Congo durante uma epidemia de mpox, segundo os promotores do Distrito Leste de Michigan. Nas últimas semanas, a influenciadora de extrema direita Laura Loomer - apoiadora do presidente dos EUA, Donald Trump - acusou o instituto de tentar encobrir o episódio, transformando em uma campanha contra o Dr. Vincent Munster e seu local de trabalho em uma espécie de causa célebre conservadora. Laura e o White Coat Waste Project (WCW), um grupo de defesa dos animais que inicialmente divulgou publicamente a investigação com base em uma denúncia, classificaram o pesquisador de vírus como uma potencial ameaça à segurança nacional. Munster há muito tempo atrai a ira da White Coat Waste, que se opõe a testes científicos em animais financiados pelos contribuintes e o acusa de “experimentos imprudentes e cruéis com primatas e morcegos” que representam “sérios riscos à biossegurança e à segurança nacional”. Em maio, Laura Loomer e o grupo exigiram ações e respostas de membros do Congresso e do governo Trump. Ela questionou, em uma publicação nas redes sociais direcionada ao presidente Donald Trump, entre outros, por que o pesquisador holandês não havia sido preso e por que o laboratório não havia sido fechado. “Aparentemente, esses especialistas do laboratório violaram nossas leis ao contrabandear patógenos virais em um avião comercial lotado durante um surto de mpox”, disse Jerome F. Gorgon Jr., procurador interino dos EUA para o Distrito Leste de Michigan, em um comunicado. O advogado de Munster, Mark J. O’Brien, disse ao The New York Times que o caso “parece muito mais escandaloso do que realmente é”. Os cientistas acusados estavam trabalhando na erradicação do mpox, acrescentou: “Este não é um episódio de terrorismo. Isso foi feito para promover pesquisas.” A pesquisa do holandês concentra-se em como os vírus em animais se modificam e são transmitidos para humanos. Ele trabalhou em estudos sobre o papel dos morcegos frugívoros na ecologia do vírus Ebola, por exemplo. A missão da Unidade de Ecologia Viral que ele estabeleceu no laboratório de Montana, em 2013, “é elucidar a ecologia de vírus emergentes e os fatores que impulsionam a transmissão entre animais e seres humanos”, de acordo com sua biografia online. Segundo a denúncia, os promotores observaram que o cientista “tem uma vasta produção científica, com aproximadamente 400 publicações e 69.000 citações”. Leia também Quem é a ativista de extrema direita que apoia Trump e é criticada até por republicanos Novo chip é capaz de monitorar células cancerígenas e indicar infecção por mpox A denúncia De acordo com os promotores, os cientistas viajavam em janeiro com uma caixa de plástico que, segundo informaram aos funcionários da alfândega, continha materiais de diagnóstico e teste, mas que, na verdade, continha mais de 100 frascos com materiais biológicos, incluindo vírus mpox inativado, vírus da varicela e outros. De acordo com o FBI, 20 frascos foram testados até o momento. Dezessete deles continham o vírus mpox inativado. O vírus mpox pode causar erupções cutâneas, febre, calafrios e outros sintomas. Vírus inativados não são infecciosos e são usados em pesquisas. No entanto, materiais biológicos inativados devem ser declarados e certificados como não infecciosos, de acordo com as normas federais dos EUA. Os cientistas acusados “não apresentaram as verdadeiras identidades dos materiais biológicos em sua posse e não forneceram e nem possuíam as certificações necessárias”, afirmou o FBI em uma declaração que fundamenta a denúncia. Os cientistas, que compareceram ao Tribunal Distrital em Missoula, Montana, na semana passada, entregaram seus passaportes e foram liberados sob fiança. O governo deve apresentar as conclusões a um júri popular para tentar obter uma acusação formal até o próximo mês. Caso os dois sejam indiciados e considerados culpados, poderão enfrentar uma pena máxima de até cinco anos de prisão. Alguns políticos receberam bem as acusações. “As famílias de Montana merecem respostas e responsabilização”, disse o senador Tim Sheehy, republicano de Montana, que recentemente solicitou ao Departamento de Saúde e Serviços Humanos que investigasse a Rocky Montana Laboratories. Na semana passada, o senador Rick Scott, republicano da Flórida, classificou as alegações como “incrivelmente perturbadoras” e expressou gratidão pelo trabalho das autoridades “em impedir que esses patógenos se espalhassem pelo país”. Os promotores, no entanto, não acusaram os especialistas em vírus de qualquer conspiração desse tipo. Outro caso O caso de Munster ecoa acusações semelhantes contra cientistas estrangeiros num momento em que o governo Trump está mirando os imigrantes. No ano passado, uma cientista chinesa em Michigan foi acusada de conspiração para contrabando de materiais biológicos perigosos, mas alegou que estava simplesmente tentando acelerar sua pesquisa sobre proteção de cultivos. Por fim, a promotoria admitiu que não conseguiu provar que ela tinha más intenções. O Consulado da China em Chicago acusou os Estados Unidos de “manipulação política” no caso. Em comunicado, os Institutos Nacionais de Saúde (NIH) afirmaram estar cooperando com as autoridades policiais na investigação e que tomaram medidas para garantir a segurança, proteger os laboratórios e restringir o acesso. Acrescentaram ainda que realizaram um inventário “para verificar se todos os materiais foram devidamente contabilizados, documentados e mantidos de acordo com todas as políticas, requisitos e procedimentos de biossegurança relevantes”. O’Brien, advogado do cientista, afirmou que, apesar de toda a repercussão sobre seu cliente nas redes sociais e da atenção indesejada por parte dos políticos, “o Dr. Munster deposita sua fé e confiança no sistema judiciário criminal federal dos EUA”. “A política não terá qualquer influência neste caso, porque este caso não tem a ver com política”, acrescentou. Esta reportagem foi publicada originalmente pelo The New York Times. 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