A região brasileira que mira transformar capital produtivo em referência mundial de inovação em proteínas

admin
12 Jun, 2026
Uma região do Brasil que havia colocado a si mesma a ambição de ser a maior produtora de proteína animal do planeta [https://www.gazetadopovo.com.br/parana/regiao-do-brasil-maior-produtora-de-carne-do-mundo/]em duas décadas agora tem um novo desafio. Próximo à tríplice fronteira com Argentina e Paraguai, o oeste do Paraná assumiu o compromisso de alcançar, em 14 anos, a liderança global em conhecimento e tecnologia agregada às proteínas. Denominado de "Ambição Regional 2040", o plano contempla o cultivo da terra de onde se produz os grãos à proteína na mesa dos brasileiros, além dos 150 países para os quais exporta. O foco está no aumento da produtividade e da produção agregada à alta tecnologia, inovação, preservação e práticas corporativas sustentáveis, a chamada agenda ESG. Tudo está registrado em um manifesto, consolidado pelo Programa Oeste em Desenvolvimento (POD) e por entidades parceiras, voltado para a indústria, à cadeia produtiva e de desenvolvimento regional. “Não é um plano de metas, é uma estratégia para transformar a vocação produtiva do território em uma referência mundial de inteligência e inovação. Para produzir mais, precisamos da expertise e isso virá da tecnologia e da inovação”, reforça o presidente do POD, Alci Rotta Junior. Na região está um dos principais polos emergentes de inovação voltados à produtividade industrial do país. O Mapa da Inovação do governo do Paraná mostra um salto expressivo no ecossistema regional: o número de startups passou de 117, entre os anos de 2021 e2022, para 202 no fim de 2025, muitas voltadas ao avanço de soluções tecnológicas aplicadas à cadeia produtiva de alimentos. Não é um plano de metas, é uma estratégia para transformar a vocação produtiva do território em uma referência mundial de inteligência e inovação. Presidente do POD, Alci Rotta Junior Os parques tecnológicos, que funcionam como ambientes de pesquisa, desenvolvimento e conexão entre empresas e ciência, saltaram de cinco para pelo menos dez; as aceleradoras, responsáveis por impulsionar negócios inovadores com mentoria, capital e acesso ao mercado, mais que dobraram, de duas para cinco; enquanto a base acadêmica, formada por 29 universidades e faculdades, sustenta o sistema com formação qualificada, pesquisa aplicada e transferência de conhecimento. “O conjunto desses ativos mostra uma região que deixa de ser apenas potência agroindustrial para se firmar como um território estratégico de inovação”, enfatiza o presidente do Sistema Federação das Indústrias do Estado do paraná (Fiep), Edson Vasconcelos. Indústria de alimentos movimenta mais de R$ 70 bilhões ao ano no oeste do Paraná O mapa da industrialização estruturado pela Fiep indica que ali existem mais de 2,5 mil indústrias, 725 delas no setor de alimentos, respondendo por três em cada dez empregos formais diretos. Se considerados os empregos indiretos ligados à cadeia, esse número salta para seis em cada dez. “É muito mais do que vender o leite in natura, é a possibilidade de extrair dele o melhor whey protein e agregar valor. Apesar de todos os desafios logísticos que o oeste (do Paraná) enfrenta, estando mais distante do porto (de Paranaguá) para escoamento das exportações, é um dos maiores polos industriais do estado”, destaca Vasconcelos. Uma estimativa da Associação Brasileira da Indústria de Alimentos e Bebidas (Abia) aponta que a indústria de alimentos na região movimenta mais de R$ 70 bilhões por ano, de um total de cerca de R$ 160 bilhões registrados em todo o Paraná. A estratégia adotada para mobilizar esse potencial regional em tecnologia e inovação é inspirada em modelos consagrados, como os polos de desenvolvimento norte-americanos e israelenses. A região pretende usar sua autoridade reconhecida no campo e na indústria para atrair ciência aplicada, alcançar novos padrões de sanidade e inovação tecnológica, abrindo caminho para a liderança global. Dados extraídos de bancos públicos do governo do Paraná, Fiep, Sebrae e Programa Oeste em Desenvolvimento. A tecnologia que chegou ao “Vale do Sítio” Um trocadilho com o Vale do Silício, região da Califórnia, nos Estados Unidos, conhecida como principal polo mundial de tecnologia e inovação, dá espaço na vida da família do produtor Leonel Defante ao “Vale do Sítio”, onde a inovação vem da roça e o faz dormir mais tranquilo. Graças à tecnologia desenvolvida em uma startup incubada em um dos grandes polos na região, ele pode automatizar todo o sistema de criação de frangos em dois aviários em Cascavel. O que antes era angústia, agora é tranquilidade. O sistema é relativamente simples, com uma inovação desenvolvida por pesquisadores locais que permite conversa com o produtor, com a cooperativa e com os fornecedores. São medidores automáticos de ração do funil de armazenagem para os comedouros. Agora Defante não precisa mais se desesperar na madrugada ou nos fins de semana quando acabar a ração. Sempre que o estoque nos pequenos silos estiver chegando ao fim, a cooperativa integradora é informada automaticamente pelo sistema e um caminhão vai à propriedade reabastecer. “Os frangos não ficam sem comida por horas e existe um planejamento. Parece algo simples, mas até poucos anos isso tirava o sono e mudou toda a cadeia, aumentou a produtividade e a previsibilidade”, reforça. Essa tecnologia é um dos passos na jornada rumo à meta de 2040 na consolidação tecnológica e de inovação transformadora. “Ela não parte de uma folha em branco, mas de um lastro real e robusto”, defende Rotta Junior. O destaque da região oeste do Paraná soma frentes diversas: posiciona-se como uma das maiores regiões produtoras e exportadoras de proteína do planeta com foco em aves, sendo a maior produtora do país neste recorte. Também ocupa a segunda colocação nacional na suinocultura e detém a terceira maior bacia leiteira entre os 26 estados e o Distrito Federal, segundo dados do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Esse sucesso produtivo é sustentado por uma cadeia produtiva forte, na qual o cooperativismo e o associativismo [https://www.gazetadopovo.com.br/brasil/como-agricultores-brasileiros-construiram-gigantes-globais/?ref=veja-tambem]operam como motores. “Todas as cinco entre as dez maiores cooperativas do país instaladas na região são signatárias na ambição regional pela tecnologia e inovação. Estão aliadas ao conhecimento e ao aumento da produtividade”, afirma Alfredo Lang, presidente da cooperativa central que une as empresas do setor na região, a Cotriguaçu, e diretor-presidente da Cooperativa Lar, com sede em Medianeira (PR). A governança multissetorial passou a pensar a região como um território integrado. “Onde um cresce, todos precisam crescer juntos, não faz sentido um apenas evoluir”, pontua o presidente da Coopavel, Dilvo Grolli, que destaca a pontualidade na entrega e no peso padrão dos frangos vindos do “Vale do Sítio”, de Leonel Defante. A cooperativa figura entre as 300 maiores do mundo [https://www.gazetadopovo.com.br/parana/hegemonia-do-agro-parana-responde-por-um-terco-do-faturamento-das-cooperativas/]e mira em expansão com tecnologia e inovação. Uma jornada didática: o cronograma da transformação O plano "Ambição Regional 2040" está estruturado em três fases distintas e interdependentes, que desenham o mapa do futuro na indústria regional e que possa ser expandida ao setor produtivo e à indústria da transformação: Estruturação e consolidação (2025–2028) Este primeiro estágio foca na criação das bases institucionais e tecnológicas. Entre os marcos estão a ativação de um imenso laboratório de dados (DataLab) que vai contar com a implementação de educação de qualidade com pedagogia da inovação desde a infância, na sala de aula. Os gestores criaram um fundo regional que funciona como uma base de recursos para apoiar a mobilização em direção à liderança global em conhecimento e tecnologia agregada à produção de proteínas. Além disso, está sendo estabelecida a Rede de Pesquisa em Proteínas e os primeiros acordos de cooperação com organismos internacionais começam a ser desenhados. “Porque experiência compartilhada é experiência que se soma ao desenvolvimento”, reforça Rotta Junior. Expansão e reconhecimento global (2029–2033) O objetivo será ampliar o valor agregado e projetar o território internacionalmente. A fase prevê a atração de empresas e indústrias âncoras de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) que olhem para a cadeia de proteínas, além da conquista de posições de destaque em rankings e certificações globais. “A internacionalização das tecnologias desenvolvidas na região será o grande diferencial deste período”, aposta o coordenador do programa e vice-presidente do POD, Clédio Marschall. Liderança global consolidada (2034–2040) O ápice da estratégia está focado em um ecossistema de proteínas integrado, sustentável e competitivo em escala mundial, desde o plantio do milho e da soja até a transformação da ração, passando por alojamento, alimentação dos animais, engorda, a indústria, o setor de logística até a mesa do consumidor. Um dos focos está na temida sanidade animal, rastreabilidade e biotecnologia. Foi graças os esforço do setor produtivo regional, das indústrias da transformação do oeste, que o Paraná se tornou, em 2021, estado livre de aftosa e sem vacinação [https://www.gazetadopovo.com.br/parana/ministerio-agricultura-declara-parana-area-livre-febre-aftosa-sem-vacinacao/]. “São bilhões em faturamento com mercados que antes não consumiam por questionarem nossa sanidade animal”, lembra o diretor-executivo da Frimesa, maior player do mercado suíno do Paraná e quarto do país, Elias Zydek, que foi diretor do Comitê de Sanidade Animal do POD. Fundo múltiplo vai manter as ações Para a engrenagem funcionar, o setor produtivo apresentou o fundo regional que ampara todas as etapas do projeto como parte de uma iniciativa de governança multissetorial compartilhada. Ou seja, o financiamento e a sustentação dessa estratégia provêm do esforço coletivo: Tecnologia e inovação avançam em região polo na produção de proteína. Em busca da soberania tecnológica para a produção nacional Um dos pontos mais sofisticados do programa é o conceito de ambidestria estratégica. O POD e o setor produtivo compreendem que a busca pelo futuro tecnológico, com aumento produtivo sustentável, não pode anular as necessidades do presente. Assim, o "Ambição Regional 2040" não substitui a extensa agenda atual das diversas câmaras técnicas do programa, apenas complementa-as, fortalecendo a base produtiva enquanto se constrói, simultaneamente, esse novo ciclo de transformação. A ciência e os dados atuam como base. “O compromisso regional abrange princípios inegociáveis como a sustentabilidade integral, a cooperação competitiva e a transparência em todas as esferas de governança”, lembra o presidente do Sistema da Organização das Cooperativas do Estado do Paraná (Ocepar), José Roberto Ricken. Para os líderes do território, a expressão "conhecimento e tecnologia em proteínas" é vista como um foco de atuação capaz de abraçar toda a cadeia de valor, incluindo os setores que contribuem com inteligência para a integração territorial. O lançamento oficial da proposta ocorreu em fevereiro deste ano durante o evento Show Rural 2026 [https://www.gazetadopovo.com.br/parana/show-rural-2026-movimenta-bilhoes-negocios-parana/], em Cascavel (PR). Líderes regionais firmaram compromisso de atuar de forma articulada para a implementação do programa. “E isso só está sendo possível porque toda a sociedade se envolveu”, completa Ricken. Para os idealizadores, o programa prevê soberania tecnológica que coloca a indústria paranaense no centro da discussão global sobre o futuro da produção de alimentos. “Isso ocorre com método, racionalidade e a coragem de sustentar uma visão de longo prazo com entregas concretas no presente. Há uma mensagem ao mercado mundial: o presente e o futuro das proteínas estão ali”, destaca Rotta Junior. Um impulso para a tecnologia e a inovação no setor produtivo A região vive uma transformação tecnológica no agronegócio ao longo dos últimos dez anos e tem como um de seus protagonistas a Coopavel, com o hub de inovação. Instalado em Cascavel, o ambiente conecta startups, indústrias e produtores rurais com soluções a problemas que nascem do campo ou da indústria. O conhecimento, a pesquisa e a inovação voltam como soluções de problemas, dos mais simples aos mais complexos. À frente do espaço está o pesquisador Cleberson Angelossi, formado em Ciência da Computação e Matemática. Ele iniciou trajetória na cooperativa assim que se formou pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná e logo passou a integrar tecnologia à produção agroindustrial, atuando diretamente em áreas como suinocultura, avicultura e agricultura (produção de grãos). O setor de inovação da cooperativa nasceu em 2021 com o objetivo de aproximar o mercado tecnológico das demandas do campo. Em 2022, nasceu o "Espaço Impulso", em parceria com o Itaipu Park Tech, que hoje é um hub voltado à inovação aberta ao agronegócio. Recentemente ampliado, o espaço dobrou de estrutura física e abriga dezenas de empresas e startups de todo o Brasil que focam nas dores do campo e da indústria do Paraná. O diferencial está na validação prática das soluções. “Tecnologias desenvolvidas por startups são testadas diretamente em propriedades rurais e agroindústrias. Entre os exemplos está a implementação dos sensores inteligentes em silos, que permitem monitorar o volume de ração, reduzindo custos logísticos e aumentando a eficiência produtiva”, descreve, ao lembrar da evolução do projeto que acompanhou de perto. Muitas soluções chegam de demandas reais do campo, as chamadas “dores do agro”, e evoluem com apoio técnico e estrutura do hub. Com atuação contínua praticamente 365 dias por ano, o espaço é um dos importantes elos de uma cadeia de inovação que caminha para a referência mundial projetada para 2040. “Estamos contribuindo para posicionar o agronegócio e a agroindústria do estado na vanguarda tecnológica global”, projeta. No comando do "Espaço Impulso", o pesquisador Cleberson Angelossi viu o sonho de desenvolver tecnologia em um ambiente de inovação. O desafio de conectar campo e indústria para impulsionar a transformação Nada disso proporcionaria resultados sem conectividade, nos locais mais remotos do campo à indústria. Entre as empresas incubadas no "Espaço Impulso" e que já atuam para a transformação global em tecnologia às proteínas está a Agromobility, com soluções à conectividade no meio rural. Há três anos, o próprio POD fez um levantamento que apontava que, na principal região produtora de proteínas do Brasil, 40% das áreas rurais estavam descobertas de conexão à internet [https://www.gazetadopovo.com.br/parana/potencia-do-agro-brasileiro-tem-falta-de-conectividade/]. A empresa foi fundada por Leonardo Luiz Slaviero, tecnólogo em Sistemas de Informação, e atua em parceria com a Venko Networks, liderada por Ricardo Pianta, formado em Ciência da Computação. Juntas, elas reduzem um dos principais gargalos do agronegócio brasileiro: a falta de conectividade. A união das empresas surgiu dessa lacuna estrutural, não só do oeste do Paraná, mas do país, que não possui ou sofre com a conexão, conforme mapearam os empresários. As soluções desenvolvidas incluem desde redes 4G privadas até equipamentos portáteis, capazes de levar internet a pontos remotos de forma rápida e acessível. É uma antena dentro de uma maleta que pode ser levada para qualquer lugar. “A conectividade deixa de ser um recurso básico e passa a ser um pilar estratégico para viabilizar tecnologias como agricultura de precisão, rastreabilidade e automação no campo, que refletem na indústria e na economia. Isso se mostra em uma indústria e economia fortes”, destaca Pianta. Inseridas no ecossistema de inovação do oeste do Paraná, com atuação em todo o território brasileiro, as empresas utilizam as áreas produtivas como laboratórios a céu aberto para testes e validações. A atuação envolve parcerias com cooperativas do agro, consideradas fundamentais para ampliar o acesso à tecnologia entre pequenos e médios produtores, realidade de 80% das propriedades rurais do Paraná. Os conceitos de indústria 4.0 e 5.0, com automação tecnológica e inovadora, prometem novos tempos, na busca por resolver um problema grave. A região tem cerca de 10 mil vagas de empregos abertas há pelo menos três anos. “A tecnologia e a inovação vêm para potencializar a produção e ocupar espaços, mas não dos humanos, daqueles que não conseguimos mais preencher com mão de obra. O processo vai trazer mais qualidade de vida, sustentabilidade e vantagens para todos”, diz o coordenador da Câmara Técnica de Empregabilidade do POD, Sérgio Marcucci. O industrial de Toledo Rainer Zielasko avalia que, na prática, com o "Ambição Regional 2040", a região e o Paraná deixarão de ser exportadores de alimentos para se tornarem os donos do conhecimento especializado, criando e vendendo soluções em biotecnologia, rastreabilidade e sanidade para o planeta. Foi na gestão dele à frente do POD, em 2024, que surgiu o embrião do plano. “O projeto vai tirar do papel ferramentas concretas atraindo grandes empresas e garantindo mais qualidade de vida e inovação para quem vive no território. E depois de 2040, quem sabe isso possa ser expandido para todo o Paraná”, avalia. Para Elias Zydek, é preciso sair do foco exclusivo da produção, para alcançar produção cada vez com maior eficiência. “Somos o quarto maior polo industrial do Brasil, conseguimos mais e estamos indo muito além. Quem quiser, pode vir conosco”, completa. Empresários inovadores se uniram para resolver uma dor do campo: a falta de conectividade na área rural.