O trilhão de Musk e as ambições siderais da IA

admin
15 Jun, 2026
Misto de ativista da ultradireita reacionária e megaempreendedor visionário, o magnata Elon Musk elevou sua opulência e ambição a novos patamares. A oferta de ações da SpaceX levantou US$ 75 bilhões e avaliou a companhia em US$ 1,75 trilhão. Com isso, mais as participações na Tesla e em outras iniciativas, o patrimônio pessoal de Musk passa a ser estimado em algo próximo de um inaudito US$ 1 trilhão. O valor atribuído à SpaceX na operação equivale a cerca de 90 vezes a receita registrada em 2025. Projeções de analistas, também siderais, indicam que essa receita pode se multiplicar por dez nos próximos anos. Não é essa fortuna recorde, contudo, o fato mais relevante —embora ela seja mais uma manifestação do efeito "o vencedor leva tudo" que marca a dinâmica da economia digital. O que a oferta de ações sinaliza de mais impactante é o grau de otimismo que os mercados depositam no ciclo atual de investimentos em inteligência artificial, que promete superar em profundidade transformadora as revoluções tecnológicas anteriores. A singularidade da SpaceX está na capacidade de Musk de unir, por meio do domínio em lançamentos orbitais, dois vetores que pareciam distantes, sem falar no propósito de levar humanos a Marte: a conectividade global por meio da Starlink, internet por satélite, e o processamento de IA. Nenhuma outra empresa reúne foguetes reutilizáveis de grande porte, milhares de satélites e a meta de instalar centros de processamento de dados no espaço. Tudo dependerá da reutilização plena do segundo estágio do foguete Starship, que pode derrubar ainda mais os custos de lançamentos e abrir caminho para os centros de dados orbitais a uma fração do custo terrestre. As incertezas e dificuldades tecnológicas, entretanto, são enormes. De todo modo, o otimismo global com o ciclo de IA vai muito além e não depende do sucesso dos planos no espaço. Como é padrão nos mercados de capitais, o entusiasmo antecipa-se aos resultados concretos e mesmo a qualquer clareza quanto aos potenciais vencedores dessa corrida tecnológica. Neste ano, só as empresas americanas mais diretamente ligadas ao ecossistema de IA —Anthropic, OpenAI, SpaceX, Google e Meta, entre outras— devem levantar conjuntamente cerca de US$ 500 bilhões em ofertas de ações, além de outras centenas de bilhões no mercado de dívida. A dimensão dessas cifras dá ideia também dos perigos embutidos: execução tecnológica aquém do esperado, bolhas nos preços das ações, pressões nas cadeias de suprimento e aumento do custo de energia para os demais consumidores. E, como é quase sempre inevitável, perdas financeiras e recessões tendem a surgir ao longo do caminho, além de impactos prováveis em empregos. A via do progresso, mostra a experiência humana, é mesmo acidentada.