Brasil jogará Copa Davis na quadra dura indoor, mas por quê?
19 Jun, 2026
Resumo A Confederação Brasileira de Tênis (CBT) anunciou, nesta quinta-feira, que o próximo confronto do país pela Copa Davis será no Rio de Janeiro, nos dias 18 e 19 de setembro, na Farmasi Arena, em quadra dura indoor. O adversário será a Suíça, e o duelo vale pelo Grupo Mundial I, uma espécie de segunda divisão da Davis. Quem vencer volta aos Qualifiers (primeira fase da divisão principal) em 2027. Quem perder fica fora da elite. A questão curiosa aqui é: por que quadra dura indoor? Por que Rio de Janeiro? Se é para aumentar as chances de contar com João Fonseca, que estará voltando do US Open (em quadra dura) e certamente gostará de atuar na sua cidade, faz sentido. Não foi isso, porém, que a CBT explicou. Aliás, parece haver uma linha cruzada nas declarações do capitão do time, Jaime Oncins, e do presidente da CBT, Alexandre Farias. No comunicado enviado pela CBT, Oncins afirma, entre outras coisas, que "decidimos jogar em uma quadra rápida e coberta, onde os atletas se sentem confortáveis e já vêm obtendo bons resultados" (a declaração na íntegra está no fim deste post). Vamos colocar essa explicação à prova? Fonseca foi campeão no ATP 500 da Basileia, em quadra dura indoor, em outubro do ano passado. Perfeito. Não atua nessas condições desde novembro, entretanto. O número 2 do país, Gustavo Heide (#187 do mundo), até venceu um jogo contra o Canadá, em fevereiro deste ano, mas tem duas vitórias e três derrotas no piso duro este ano. João Lucas Reis (#237), não vence uma partida em quadra dura (indoor ou outdoor) desde novembro de 2024, num Challenger em Temuco. Pedro Boscardin (#241) também tem sua última vitória no piso sintético nesse mesmo Challenger, só que no qualifying. Perdeu na primeira rodada da chave principal. Thiago Monteiro (#285) venceu pela última vez em quadra dura no quali do Australian Open de 2025 (janeiro). Thiago Wild (#297) venceu um jogo no quali do Australian Open deste ano, mas perdeu oito de seus últimos dez jogos no piso. Acho que já deu para entender o meu ponto. Quando Oncins fala em "já vêm obtendo bons resultados", está sendo bastante generoso com o histórico de seus atletas. Repito: se a ideia era aumentar as chances de ter João Fonseca, acho ótimo. Mas isto precisa ser comunicado. Não foi o que a CBT fez. E como o confronto será no Rio, em uma arena que fica a cerca de 100 metros do finado Centro Olímpico de tênis, perguntei à CBT se foi cogitado fazer a Davis lá. A resposta do presidente foi a seguinte: "Analisamos o Parque Olímpico, mas como teríamos problemas como desmontagem e manuseio de materiais em razão do Rock In Rio, e algumas salas do parque não poderiam ser utilizadas, tentamos o Maracanãzinho, que já tinha evento. A única arena com estrutura e qualidade foi a Farmasi Arena." Há dois comentários importantes sobre esta declaração. Quando Farias fala em "a única arena", deveria falar única arena no Rio de Janeiro. Ou será que não era possível fazer esse duelo em outra cidade? Afinal, se é quadra dura indoor, acredito que haja vários locais em que é possível criar um bom ambiente de Copa Davis (como a CBT já fez anteriormente). E repito ainda outra vez: se o Rio foi escolhido por causa de Fonseca, acho válido. Mas não foi isso que a CBT explicou. Ou não quis admitir publicamente. Mas há outro ponto importante aqui: pela frase de Farias, entende-se que a Farmasi Arena foi considerada depois do Parque Olímpico, que não é indoor. E se o Parque Olímpico foi o primeiro local pensado, o plano nem sempre foi jogar numa arena indoor, certo? Ou isso ou a CBT não fez uma boa comunicação sobre as intenções de seu capitão e de seu presidente. E boa comunicação é algo vital para uma entidade que está em busca de patrocinadores para colocar em prática o seu bom plano de subsidiar mais torneios no país. Coisas que eu acho que acho: - A Suíça me preocupa menos do que a comunicação da CBT. Com Fonseca e uma ótima dupla (o que vai existir com qualquer que seja a formação), o Brasil pode vencer sem drama um time que tem como melhores tenistas Leandro Riedi (#116), Remy Bertola (#197), Jerome Kym (#201) e Kilian Feldbausch (#290). Dominic Stricker, que foi top 100 em 2023, é hoje o #347, e o jovem Henry Bernet, campeão de slam como juvenil, é o #490 e vinha numa fase horrorosa até o começo deste mês. - "Nossa, Cossenza, você está mais preocupado com a comunicação da CBT do que com as chances do Brasil?" Eu gosto das chances do Brasil contra a Suíça em qualquer piso. Mas sim, quero que a entidade que cuida do esporte no Brasil faça seu trabalho bem. E a chance de obter patrocínios com valores relevantes aumenta quando a comunicação é feita devidamente. - Repito pela enésima vez: se a intenção foi garantir Fonseca no time, ótimo. Há, porém, um risco. Se o carioca se lesionar durante a temporada de quadras duras no hemisfério norte, Oncins e seu time terão de encarar a Suíça em condições que não serão nada ideais para a equipe. À exceção de Fonseca, todos selecionáveis brasileiros fazem calendários quase exclusivamente no saibro este ano. Sim, todos devem vir do US Open, onde há quadra duras, mas isto deve valer também para os suíços. - Segue a frase de Oncins completa sobre o confronto: "Pela primeira vez em muito tempo, tomamos uma decisão que foge do tradicional. Antigamente, quando jogávamos no Brasil, a escolha era automática: saibro e nível do mar. Hoje, a realidade é outra. O perfil dos nossos jogadores mudou e eles demonstraram uma excelente capacidade de adaptação a diferentes pisos, como vimos em nossos últimos resultados fora de casa. Pensando nisso e nas características atuais da nossa equipe, decidimos jogar em uma quadra rápida e coberta, onde os atletas se sentem confortáveis e já vêm obtendo bons resultados. Além disso, o fato de contarmos com uma arena indoor que possui toda a infraestrutura necessária para sediar um evento desse porte em casa pesou muito na nossa escolha. É um cenário ideal e onde, historicamente, inclusive na Copa Davis, nossos jogadores têm se adaptado muito bem." Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL.