Cachaça de alambique pode virar patrimônio cultural

admin
22 Jun, 2026
Uma pesquisa desenvolvida pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha-MG) pode reconhecer a cachaça de alambique como um patrimônio cultural de Minas Gerais. A bebida e seu meio de produção passam a integrar os estudos de proteção dos modos tradicionais de fazer que formam a identidade cultural do estado. A iniciativa dá continuidade à política pública da Secretaria de Estado de Cultura e Turismo (Secult-MG) de valorização da cozinha mineira como patrimônio cultural. Leia Mais Alerta para os efeitos do El Niño na agricultura e pecuária em MG Irmãs incrementam a produção de amendoim na Região Central de Minas Governo estuda criar fundo garantidor para dívidas rurais Luciane Andrade, diretora de Proteção e Memória do Iepha-MG, explica que o trabalho encontra-se na fase de pesquisa técnica, que envolve o levantamento documental, a revisão bibliográfica, entrevistas e atividades de campo junto a produtores, trabalhadores rurais, mestres detentores de saberes tradicionais e representantes de diferentes grupos sociais relacionados à produção e circulação da cachaça de alambique. “A pesquisa busca compreender a relevância histórica, social, econômica e cultural da prática em Minas Gerais, considerando sua presença em distintos territórios e sua relação com comunidades rurais, comunidades quilombolas, povos indígenas, povos e comunidades tradicionais, além de terreiros e casas de matriz afro-religiosa que, em diferentes contextos, mantêm vínculos históricos, simbólicos e culturais com a produção, circulação e usos da cachaça”, detalha Luciane. Cerca de 87% da cachaça de alambique produzida em Minas Gerais é irregular Ela ressalta que o reconhecimento patrimonial não se refere apenas à bebida, mas ao conjunto de saberes, práticas, técnicas, memórias, formas de organização do trabalho e relações sociais associadas ao seu modo de fazer. Assim, entre os aspectos considerados para o reconhecimento dos alambiques tradicionais como patrimônio do estado estão a transmissão intergeracional dos conhecimentos, a continuidade das práticas produtivas, sua relevância cultural para as comunidades envolvidas, a relação com os territórios e a contribuição para a formação da identidade mineira. “A trajetória da cachaça de alambique também reflete os processos de formação da sociedade mineira, envolvendo contribuições de matrizes indígenas, africanas e europeias. Os conhecimentos associados ao cultivo da cana, ao trabalho nos engenhos, às técnicas produtivas e às formas de sociabilidade foram construídos por diferentes grupos sociais ao longo do tempo, contribuindo para a construção dos territórios e das referências culturais que hoje fazem da cachaça de alambique um importante símbolo de Minas Gerais”, conta a diretora do Iepha-MG. Produtores de laranja de MG preparam cerco à principal doença dos cítricos Dentro dessa mineiridade, Luciane Andrade afirma que o modo de fazer a cachaça de alambique varia nas regiões do estado, resultando em produtos com identidade própria (terroir). “As características da bebida e dos processos produtivos variam em função de fatores ambientais, históricos e culturais, como clima, solo, variedades de cana, disponibilidade de água, métodos de fermentação, técnicas de destilação e formas de envelhecimento”, explica. Minas abre espaço para a produção de lúpulo A diretora do Iepha-MG ressalta que a diversidade da produção mineira vai muito além das famosas cachaças da região de Salinas, no Norte de Minas. Para compreender essa pluralidade, a pesquisa prevê atividades, sim, no Norte do estado (em Salinas, Montes Claros, Januária, Pedras de Maria da Cruz e Brasília de Minas), mas também na região do Serro e em municípios da Região Metropolitana de Belo Horizonte, como Paraopeba e Caeté. “O objetivo é identificar as especificidades regionais e compreender como diferentes paisagens culturais e comunidades produtoras contribuem para a construção da diversidade cultural associada à cachaça de alambique mineira”. A proposta também é construir um panorama representativo da diversidade cultural, territorial e produtiva associada à cachaça de alambique em Minas Gerais. Renovação geracional Sobre a preservação do modo de fazer a cachaça de alambique, Luciane Andrade considera que ainda se trata de uma prática cultural que permanece viva e amplamente difundida em diversas regiões mineiras. “Muitos dos conhecimentos relacionados ao cultivo da cana, à fermentação, à destilação e ao envelhecimento continuam sendo transmitidos entre gerações”, afirmou. Ao mesmo tempo, ela considera importante reconhecer os desafios relacionados à renovação geracional, às transformações econômicas e às mudanças nos modos de vida dos territórios onde a produção está inserida. “Nesse contexto, iniciativas de valorização cultural têm se mostrado fundamentais para fortalecer a atividade. A experiência do Queijo Minas Artesanal demonstra que o reconhecimento de um bem cultural pode também agregar valor econômico ao produto, ampliar sua visibilidade e estimular o interesse das novas gerações em dar continuidade à tradição, compreendendo-a não apenas como patrimônio cultural, mas também como fonte de trabalho, renda e desenvolvimento local”, compara. Presidente da Associação Nacional da Cachaça de Alambique (Anpaq), Sergio Maciel elogiou a iniciativa, que pode valorizar a cachaça de alambique. Ele conta que os pequenos produtores já comemoraram a publicação da Portaria 539 pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), em 2022, que determinou o que é uma cachaça de alambique, diferenciando-a dos produtos industrializados. No entanto, Sérgio considera mais importante o reconhecimento do nome “cachaça de alambique” do que o método de produção: “Eu não quero engessar o método de produção da cachaça, como fizeram com o queijo. Se eu fizer isso e virar patrimônio histórico imaterial, não vai mais poder mexer, e existem várias produções no Brasil inteiro. Nós estamos querendo fazer um projeto nacional. O método de produção de que hoje nós estamos falando que é o melhor, amanhã pode ser colocado em xeque.” O projeto nacional ao qual o presidente da Apaq se refere é um manifesto entregue ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) que defende o reconhecimento da cachaça de alambique como patrimônio histórico, cultural e imaterial do Brasil. “Nosso próximo passo é o lançamento de um selo da cachaça de alambique, para diferenciar os produtos nas prateleiras”, anunciou Sérgio Maciel.