Land Rover vai encerrar produção no Brasil e ceder fábrica a chineses
23 Jun, 2026
Resumo A Jaguar Land Rover se prepara para encerrar as operações industriais em Itatiaia, no interior do Rio de Janeiro, após dez anos de produção local. A informação foi publicada inicialmente pela Quatro Rodas e confirmada pelo UOL Carros com fontes ligadas à empresa. Segundo apurou a coluna, existe uma carta de intenções assinada pela Chery para que a Omoda & Jaecoo assuma a operação. A negociação ocorre diretamente com a operação global da Tata Motors, grupo indiano que controla a Jaguar Land Rover. Essa proximidade nas negociações é impulsionada pela parceria global que as duas montadoras já mantêm na China, onde JLR e Chery anunciaram recentemente o renascimento do nome Freelander como uma nova marca de veículos elétricos baseada em plataforma chinesa. Em paralelo, a Chery negocia com a Prefeitura de Itatiaia e com o governo do Rio de Janeiro a manutenção dos benefícios fiscais ligados à planta. A fábrica de Itatiaia foi atraída por um pacote de incentivos estaduais e municipais. No âmbito estadual, a JLR foi enquadrada no RioInvest, programa ligado ao Fundes, com linha de financiamento de R$ 629 milhões e diferimento de ICMS. No município, a empresa participa de um programa que prevê benefícios como isenção de IPTU, ITBI e redução de ISS. É justamente a manutenção desse ambiente tributário que a Chery discute agora com a prefeitura e com o governo do Rio. A prefeitura chegou a publicar em seu site informações sobre uma reunião com representantes do grupo chinês, mas o texto foi retirado do ar depois. Em condição de anonimato, uma fonte ligada à empresa confirmou que a reunião, de fato, aconteceu no dia 12 de junho. Procurada pelo UOL Carros, a JLR não confirmou oficialmente o encerramento da produção nem a negociação com a Chery. Em nota, a empresa afirmou apenas que "a produção da unidade de Itatiaia (RJ) segue normalmente durante o mês de junho, conforme o planejamento operacional da companhia. Não temos informações adicionais para compartilhar neste momento". A empresa, no entanto, não deu detalhes sobre o que acontece a partir de julho com a fábrica. Fábrica nunca usou capacidade total A fábrica de Itatiaia foi inaugurada em 2016 e marcou a primeira operação industrial da Jaguar Land Rover fora do Reino Unido. Também foi a única unidade fabril da companhia na América Latina. O projeto foi anunciado em um período em que o Brasil ainda tentava atrair montadoras premium para produção local, com incentivos regionais e a possibilidade de reduzir a exposição à carga tributária dos importados. Na época, a aposta era montar no país SUVs de alto valor agregado, começando pelo Land Rover Discovery Sport. Depois, a unidade também recebeu o Range Rover Evoque. O complexo teve investimento inicial de R$ 750 milhões, e capacidade instalada de 24 mil veículos por ano. Na prática, porém, a produção nunca alcançou grandes volumes. A operação brasileira da JLR sempre teve mais peso estratégico do que escala industrial. A fábrica trabalhava em regime SKD, no qual os veículos chegam ao país parcialmente montados, com carroceria já pintada, e passam no Brasil pela etapa final de montagem. É um processo mais simples do que o CKD, no qual o carro chega mais desmontado e exige uma cadeia produtiva mais complexa. Essa diferença é importante porque o plano da Chery para Itatiaia tende a exigir uma operação mais robusta. O Auto+ informou que a intenção seria ampliar a capacidade da planta para até 87 mil unidades por ano e usar o regime CKD, mais complexo do que o adotado pela Land Rover no Brasil. O encerramento da produção local da JLR também acompanha a mudança de estratégia global da companhia. A marca vem concentrando esforços em modelos de maior margem, eletrificação e redução de complexidade industrial. No Brasil, o volume dos modelos nacionais ficou cada vez mais limitado diante do tamanho da estrutura montada no Rio de Janeiro. De acordo com dados da Fenabrave, em 2025 a Land Rover vendeu 425 unidades do Discovery Sport e 332 unidades do Range Rover Evoque no Brasil. Chery resolveria impasse Para a Chery, a negociação por Itatiaia resolve um problema antigo: onde produzir os carros da Omoda & Jaecoo no Brasil. A marca chinesa já tinha uma fábrica própria em Jacareí, no interior de São Paulo, mas a unidade está desativada desde 2022. A reativação dessa planta chegou a ser considerada nos bastidores, mas esbarrou em entraves ligados à estrutura da operação brasileira da Chery e à relação com a Caoa, dona de pouco mais de 50% da planta. A Caoa é parceira da Chery no Brasil desde 2017 e produz modelos da linha Tiggo em Anápolis (GO). Mas a Omoda & Jaecoo foi estruturada como uma operação independente. Por isso, a negociação por Itatiaia aparece como uma saída fora do arranjo com a Caoa e sem depender da reativação de Jacareí - que poderia ser mais caro por depender de mais atualizações estruturais do que Itatiaia. A Omoda & Jaecoo já iniciou sua operação comercial no Brasil com SUVs eletrificados, mas a produção local é considerada peça central para dar escala à marca. A nacionalização permitiria melhorar custos, reduzir exposição cambial e enquadrar os modelos em condições tributárias mais favoráveis, especialmente em um momento em que o governo federal reorganizou incentivos para veículos produzidos no país. Entre os modelos cotados para a fábrica estão SUVs da Omoda & Jaecoo, incluindo produtos de maior volume. O futuro Omoda 4 é um dos candidatos naturais para produção local, com possibilidade de versões turboflex e híbridas. 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