Movimentos estranhos em público
23 Jun, 2026
A compulsão por telas é um problema generalizado — quem diz que não tem, é porque ainda não se deu conta. Eliminar a tela, mantendo o aparato tecnológico conectado à internet, é uma possível saída? Venho pensando nisso desde que coloquei um Apple Watch no meu pulso . (Ele já saiu dali.) O relógio da Apple realizou a profecia feita por Claudinho e Buchecha em 1998 e, de repente, eu conseguia controlar o calendário — e muitas outras coisas — sem utilizar as mãos. Mais ou menos, para ser preciso. Troquei os toques com o dedo na tela por gestos. São dois possíveis. Ao girar o pulso rapidamente, o watchOS descarta o aplicativo, cartão ou alarme que estiver em foco e retorna à tela de início. Prático para fazer o alarme parar quando estou com as mãos sujas, lavando a louça ou cozinhando. O outro é o movimento de tocar duas vezes com os dedos indicador e polegar para “clicar” em botões e rodar por cartões ou telas longas. Em setembro, os agraciados com o watchOS 27 ganharão mais um gesto, o toque único com os referidos dedos. Será possível não só rodar por cartões, mas abri-los também. Os dois que existem hoje funcionam muito bem, o que me levou a usá-los com frequência, o que me deixou um tanto preocupado com a percepção que outros poderiam ter de mim, fazendo gestos aleatórios com as mãos sem motivo aparente. Os gestos do relógio se somaram aos dos AirPods, que uso há mais tempo e me permitem ignorar notificações longas balançando a cabeça na horizontal, como se manifestando um “não” (????). Imagine um transeunte que me vê na rua balançando a cabeça? O movimento de “sim” (????) atende ligações. É como se a tecnologia vestível estivesse criando uma evolução (ou regressão) do Homo sapiens. Estamos virando Homo schizophrenicus, chacoalhando a cabeça e os membros para lidar com tarefas que — para mim, pelo menos — são ok de serem feitas na tela do celular ou do relógio. Dá para imaginar outros no futuro. Bater as palmas para acender ou apagar as luzes? Clássico. Desconfio que os sensores do Apple Watch conseguiriam entender esse gesto. Balançar a cabeça violentamente para tocar uma playlist de heavy metal? Levantar o dedo do meio para entrar no modo offline? Imagine as possibilidades... Apesar desses exemplos recentes da Apple, o uso de gestos vem de longa data e de outros departamentos de pesquisa e desenvolvimento. Já tivemos câmeras que respondem a gestos para registrar uma fotografia; TVs com câmeras em que alteravam o volume se você chacoalhasse os braços; e o Kinect, a malfadada resposta da Microsoft ao sucesso do concorrente Nintendo Wii. Era tipo o Wii, mas sem controles físicos. Cogito se não foi essa diferença que impediu o Kinect de prosperar, considerando a persistência de gestos no ar nos anos que se seguiram. A próxima fronteira proposta pela Meta, empresa especialista em lançar tecnologias esquisitas, é um par de óculos (aquele de pervertidos) com uma pulseira que “interpreta” gestos. O que poderia dar errado? Reconheço a conveniência em alguns casos. Poucos. A tela calha de ser a interface mais atraente, mas não é como se fechar-se em fones de ouvido com cancelamento de ruídos potente ou redirecionar as interações com tela a uma menor, no pulso, conseguissem nos tirar do torpor da internet hiper-personalizada dos anos 2020. Hoje, o único gesto que me anima são aqueles que faço com as mãos quando estou empolgado conversando com alguém, cara a cara, sem relógios, fones de ouvido ou telas por perto.