Isenção para importado elétrico chinês ameaça empregos no Sul Fluminense

admin
25 Jun, 2026
Foto: Divulgação Polo automotivo regional reúne montadoras como Stellantis, em Porto Real, Volkswagen Caminhões e Ônibus, em Resende, e Nissan, também em Resende, além de mais de 20 fornecedores e sistemistas integrados à cadeia produtiva Sul Fluminense – No mesmo dia em que o navio BYD Changsha atracava no Porto de Itajaí com 7.216 veículos elétricos e híbridos a bordo — a maior operação automotiva do terminal em 2026 —, o governo federal anunciava a prorrogação da isenção de impostos para importação de veículos chineses desmontados e semimontados. Para o Sul Fluminense, segundo maior polo automotivo do Brasil, a combinação dessas duas notícias representa uma ameaça concreta ao emprego, à renda e ao futuro industrial da região. O presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do Sul Fluminense, Odair Mariano, foi direto ao avaliar a decisão do governo federal. “Não somos contra a modernização da indústria nem contra a chegada de novas tecnologias. O que questionamos é a concorrência desigual. Enquanto as montadoras instaladas no Brasil geram empregos, recolhem impostos e movimentam toda uma cadeia produtiva, vemos o governo abrir espaço para uma enxurrada de veículos importados com incentivos que prejudicam quem produz aqui”, afirmou Odair. O dirigente foi além e conectou a decisão federal ao cotidiano dos trabalhadores da região. “Nossa região depende fortemente da indústria automotiva. Quando um veículo deixa de ser produzido aqui para ser importado pronto ou semimontado, estamos falando de empregos que deixam de ser gerados, renda que deixa de circular no comércio local e oportunidades que desaparecem para milhares de famílias do Sul Fluminense”, disse. O Comitê-Executivo de Gestão da Câmara de Comércio Exterior prorrogou por seis meses, a partir de 1o de julho, a cota de importação com alíquota zero para veículos elétricos desmontados e semimontados, no volume de US$ 463 milhões — equivalente a cerca de R$ 2,4 bilhões. A medida havia sido encerrada em fevereiro de 2026, após longo debate com o setor produtivo. Agora foi reaberta sem consulta à indústria. A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores, a Anfavea, divulgou nota oficial classificando a decisão como “contrária aos interesses dos trabalhadores, das fabricantes nacionais de veículos e das empresas brasileiras de autopeças” e anunciou que vai acionar a Justiça contra a medida. “A decisão, tomada sem consulta ao setor produtivo, altera de forma intempestiva uma política definida pelo próprio Governo Federal, que teve como objetivo combinar a expansão da eletromobilidade no Brasil com a atração de investimentos produtivos de longo prazo para o país”, afirmou a Anfavea em nota oficial. R$ 140 bilhões em risco A Anfavea documenta que a indústria respondeu aos estímulos do governo. As fabricantes anunciaram R$ 140 bilhões em investimentos até 2033, destinados a novas formas de propulsão, eletrificação, pesquisa, engenharia, modernização industrial e ampliação da cadeia de fornecedores. Em 2025, os veículos eletrificados produzidos no Brasil responderam por 25,9% das vendas do segmento. No acumulado até maio de 2026, o mercado atendido por veículos fabricados no Brasil cresceu 57% na comparação com o mesmo período de 2025. “Benefícios destinados à importação podem cumprir papel relevante em fases iniciais de implantação industrial. A ampliação em um momento em que os investimentos já estão anunciados e a produção local está em expansão reduz os incentivos para a evolução produtiva esperada dessa nova etapa da indústria automotiva”, destaca a nota da Anfavea. O presidente da Anfavea, Igor Calvet, resumiu o que está em jogo. “O que está em debate não é a transição energética, que já está em curso e não vai parar. O que está em debate é qual modelo de desenvolvimento o país pretende incentivar para a nova mobilidade e qual espaço será reservado à produção nacional nesse processo”, afirmou. Sul Fluminense no centro da debate O polo automotivo regional reúne montadoras como Stellantis, em Porto Real, Volkswagen Caminhões e Ônibus, em Resende, e Nissan, também em Resende, além de mais de 20 fornecedores e sistemistas integrados à cadeia produtiva. São mais de 20 mil empregos diretos e indiretos, com salários que chegam ao dobro da média da indústria de transformação nacional. A Stellantis, que acaba de abrir 100 novas vagas em Porto Real para a produção do Jeep Avenger, foi uma das quatro montadoras a assinar carta conjunta ao presidente Lula pedindo que a prorrogação não fosse concedida. Volkswagen, General Motors e Toyota também assinaram. A carta alertou que a medida representa “um legado de desemprego, desequilíbrio da balança comercial e dependência tecnológica.” A Firjan e a ADR Sul Fluminense integram o conjunto de federações industriais dos nove estados com fábricas de veículos que também se manifestaram contra a medida. Trabalhadores unidos contra a medida A posição de Odair Mariano não está isolada. Em fevereiro, antes da renovação, 19 centrais e sindicatos de trabalhadores de todo o Brasil enviaram cartas ao presidente da República e aos ministérios pedindo o fim das cotas de importação de kits desmontados. Assinaram a CUT, a Força Sindical, a CTB, a Confederação Nacional dos Trabalhadores Metalúrgicos e outros 14 sindicatos regionais, incluindo o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. “A adesão inequívoca de todos os sindicatos e centrais que representam o chão de fábrica é uma sinalização do quanto a simples montagem de veículos importados pode afetar os empregos em toda a cadeia automotiva brasileira, com enormes impactos econômicos e sociais para o país”, afirmou Calvet. Para Odair Mariano, o avanço das novas tecnologias e da eletrificação precisa acontecer com investimentos em fábricas instaladas no Brasil. “O Sindicato dos Metalúrgicos do Sul Fluminense defende que a eletrificação da frota aconteça com garantia de produção nacional, geração de empregos e fortalecimento da cadeia industrial brasileira”, afirmou o dirigente. Navio que resume a disputa O BYD Changsha tem 220 metros de comprimento, foi construído em 2025 e comporta até 9.200 automóveis. Nesta terça-feira atracou em Itajaí com 7.216 unidades — a segunda grande escala da BYD no terminal em menos de um mês. Em maio, o navio Grande Shanghai trouxe outros 4.585 veículos. No primeiro semestre de 2026, o porto já recebeu 15.496 veículos da BYD — quase o dobro de todo o ano de 2025. Em abril, a BYD superou a Volkswagen e tornou-se a montadora mais vendida no varejo brasileiro, com 14.911 unidades entregues no mês. Para o Sul Fluminense, esses números não são apenas estatísticas de mercado. São indicadores diretos da pressão que a indústria regional enfrenta — e da urgência de uma política industrial que proteja a produção nacional no momento exato em que ela mais avança. LEIA MAIS MATÉRIAS Incêndio em loja na Beira Rio assusta Volta Redonda; veja o vídeo