Existe uma esquerda democrática?

admin
28 Jun, 2026
"O conceito de democracia é relativo." A frase é de Lula, junho de 2023, e foi dita em defesa de Nicolás Maduro. Semanas antes, ao lado do venezuelano no Palácio do Planalto, ele já havia descrito a Venezuela como vítima de uma narrativa de antidemocracia e autoritarismo. Quem o corrigiu em público não foi a oposição brasileira e sim Gabriel Boric, presidente de esquerda do Chile, que lembrou que o sofrimento dos venezuelanos era real e não uma construção. Em janeiro de 2026, o ditador cuja repressão Lula reduzira a uma narrativa foi arrancado da própria cama por forças americanas e levado a uma cela no Brooklyn, onde responde por narcotráfico. A relatividade da democracia não lhe serviu de proteção, e a narrativa que Lula tratava como invenção dos adversários terminou sendo a descrição exata do regime que ele defendia. A defesa de Maduro não foi um caso isolado. Lula resistiu por anos a chamar o regime venezuelano de ditadura, e ajudou a fundar em 1990 o Foro de São Paulo, articulação que reúne a esquerda do continente há mais de trinta anos. A reticência diante do autoritarismo de um aliado não ficou na diplomacia. Em junho de 2026, ela apareceu dentro das urnas, e a pergunta deixou de ser acadêmica: existe uma esquerda democrática? A derrota Em 21 de junho de 2026, a Colômbia elegeu Abelardo De la Espriella presidente no segundo turno, com 49,66% contra 48,70% de Iván Cepeda, candidato do Pacto Histórico de Gustavo Petro. Cepeda, o derrotado, reconheceu o resultado três dias depois. Quem não o fez foi Petro, o presidente, que passou esses dias denunciando uma fraude que já alegava desde o primeiro turno, em 31 de maio. A missão de observação da União Europeia, com 143 observadores de mais de vinte países, não encontrou irregularidades. A auditoria do instituto interamericano CAPEL chegou à mesma conclusão, e a Registraduría informou que a apuração dos juízes coincidia em 99,9% com a contagem preliminar. Especialistas desmontaram as provas que Petro apresentou, mostrando que ele confundia problemas de infraestrutura de internet com adulteração de votos. O elemento que explica a denúncia está em 2022. Quando venceu, com a maior votação da história colombiana, Petro aceitou sem ressalva a mesma contagem preliminar que agora chama de fraude. As mesas com votação alta que ele aponta como prova de manipulação foram proporcionalmente mais frequentes na eleição que ganhou, 8,73%, do que na que perdeu, 4,13%. Pressionado a reconhecer a derrota, lembrou que já havia pegado em armas uma vez por causa de uma fraude eleitoral, referência à própria militância no M-19. A cobrança mais dura não veio da direita. A jornalista María Jimena Duzán, de esquerda, escreveu que aceitar o resultado é o que faz uma esquerda democrática, e que recusá-lo entrega à direita a bandeira de defensora da Constituição. No Peru, a cena se repetiu no mesmo mês, com uma diferença que convém registrar. As acusações de fraude começaram pela direita, com Rafael López Aliaga reclamando de manipulação depois de ficar em terceiro no primeiro turno, em abril. Foi o derrotado do segundo turno, porém, o esquerdista Roberto Sánchez, do Juntos por el Perú, quem em 23 de junho anunciou que não reconheceria o governo de Keiko Fujimori, alegando uma fraude que a associação Transparência e os tribunais eleitorais já haviam descartado por falta de prova. Há um degrau acima de não reconhecer um resultado, e o Peru já o subiu. Em dezembro de 2022, o presidente de esquerda Pedro Castillo tentou dissolver o Congresso e governar por decreto, um autogolpe que durou poucas horas até a prisão. O gesto de Castillo foi além de recusar um resultado, descartou a própria instituição que poderia julgá-lo. A doutrina Parte da esquerda tem uma justificativa histórica para essa recusa. Em 1918, em "A Revolução Proletária e o Renegado Kautsky", Vladimir Lênin descreveu a democracia liberal como uma fachada burguesa. Argumentava que de pouco servia cada cidadão ter um voto igual enquanto a riqueza e o poder seguiam concentrados numa classe, e que a igualdade perante a lei apenas disfarçava quem mandava de fato. Contra Karl Kautsky, que foi um dos fundadores da chamada social-democracia, opôs a ditadura do proletariado e uma vanguarda capaz de conhecer o verdadeiro interesse do povo melhor do que o próprio povo nas urnas. Se a democracia das urnas é só aparência, e a verdadeira ainda está por vir, rejeitar um resultado deixa de ser um golpe e vira lealdade à democracia de verdade. López Aliaga gritou fraude e não passou de um perdedor inconformado, sem nada que sustentasse a queixa. A recusa de Petro vinha amparada por outra coisa, pela denúncia de interferência estrangeira e por uma tradição que López Aliaga não tinha como invocar. A objeção a tudo isso veio, ainda no século passado, de dentro da própria esquerda. Norberto Bobbio se dizia socialista liberal e nunca escondeu o lado em que estava, e é por isso que sua advertência pesa mais do que a de qualquer crítico de direita. Em "Direita e Esquerda" e em "Qual Socialismo?", ele separou a democracia formal, feita de regra e alternância, da democracia substantiva, feita de igualdade material, e sustentou que a esquerda podia perseguir a segunda sem sacrificar a primeira, desde que jamais confundisse persegui-la com suspendê-la. Bobbio escreveu contra o socialismo realmente existente de seu tempo justamente para lembrar que nenhuma promessa de igualdade futura autoriza desconhecer a vontade contada no presente. Qual esquerda? A essa altura, a resposta à pergunta do título parece um não. Mas existe, sim, uma esquerda democrática, e quem o afirma com mais clareza é Adriano Gianturco, cientista político do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais. Ela tem nome, social-democracia, e uma linhagem que passa por John Rawls e John Maynard Keynes. Seus governos se comportaram como governos, não como movimentos. Em Portugal, o Partido Socialista equilibrou as contas e levou o país, em 2019, ao primeiro superávit orçamental em quase meio século de democracia. Na Inglaterra, o New Labour de Tony Blair conservou as privatizações de Thatcher em vez de desfazê-las, e Gianturco lembra que também foram governos de esquerda que abriram as economias da Itália e da Nova Zelândia. Chamar isso de esquerda, diz ele, não é polêmico em lugar nenhum, nem entre cientistas políticos nem entre economistas. O problema, na leitura dele, é de etiqueta, e é brasileiro. Os marxistas convenceram a opinião pública de que essa esquerda social-democrata, o PSDB de Fernando Henrique, era direita neoliberal – embora as privatizações que FHC conduziu nos anos 90 fossem as mesmas que a esquerda moderada europeia fazia ao mesmo tempo. O rótulo colou, e o efeito foi que, no Brasil, a palavra esquerda deixou de nomear a social-democracia e passou a nomear quem a havia empurrado para a direita. É essa esquerda, a que ficou com o nome, que defendeu Maduro lá fora e recusou o resultado das urnas em Bogotá e em Lima. O que sobra A esquerda democrática não só existe como costuma policiar a própria casa. Foi Boric quem corrigiu Lula sobre a Venezuela, e foi María Jimena Duzán, jornalista de esquerda, quem lembrou a Petro que aceitar a derrota é o que se espera de uma esquerda democrática. A Frente Amplio governou o Uruguai e entregou o poder sem ruído. Nada disso sustenta uma tese de incompatibilidade de origem entre a esquerda e a democracia. A dúvida que sobra aponta para a frente, e é brasileira. A Unidade Popular lançou Samara Martins como pré-candidata à Presidência em 2026, com um programa que chama de Revolução e Socialismo e diz sem rodeio que quer superar o capitalismo, e teve 0,05% dos votos em 2022. É a versão mais franca, e mais inofensiva, da esquerda revolucionária no país. O perigo está no campo que ficou com o nome depois que a social-democracia foi empurrada para a direita, o mesmo que tratou Maduro como vítima de narrativa e que ainda não perdeu, dentro do Brasil, uma eleição grande demais para engolir. O que fará nesse dia é a única parte da resposta que continua em aberto.