Novo documentário mostrará o Brasil evangélico além da caricatura
4 Jul, 2026
No próximo dia 8 de julho, a Brasil Paralelo [https://www.gazetadopovo.com.br/tudo-sobre/brasil-paralelo/] lançará gratuitamente o documentário O Brasil Evangélico, uma produção que nasce com uma missão tão necessária quanto delicada: apresentar ao país um retrato mais fiel de um dos maiores fenômenos religiosos [https://www.gazetadopovo.com.br/tudo-sobre/religiao/], sociais e culturais da história do Brasil: a ascensão dos evangélicos [https://www.gazetadopovo.com.br/tudo-sobre/evangelicos/]. O Brasil nasceu sob matriz católica. Durante séculos, o protestantismo [https://www.gazetadopovo.com.br/tudo-sobre/protestantes/]praticamente não encontrou espaço efetivo em solo brasileiro, e suas primeiras tentativas de ingresso foram marcadas por experiências interrompidas ou tragicamente frustradas, como no episódio do Brasil Holandês, no século 17, em Pernambuco, e no testemunho dos Mártires da Guanabara, ainda no século 16, no Rio de Janeiro. A presença protestante começaria a ganhar contornos mais concretos apenas no Primeiro Reinado, especialmente com a chegada de colonos alemães luteranos [https://www.gazetadopovo.com.br/tudo-sobre/luteranos/]. Cresceria, ainda de modo tímido, durante o Segundo Reinado, para depois assumir proporções muito mais amplas a partir da expansão pentecostal, impulsionada por missionários como Daniel Berg e Gunnar Vingren, vindos do ambiente religioso de Chicago e responsáveis pela fundação da Assembleia de Deus no Brasil. Desde então, os evangélicos avançaram de forma extraordinária, a ponto de representarem hoje quase 30% da população brasileira, e crescendo... Para parte relevante da elite cultural brasileira, o evangélico é fanático, manipulável, pobre de repertório, politicamente instrumentalizado e ameaça à democracia Os evangélicos brasileiros já não podem ser tratados como nota de rodapé da vida nacional. Eles estão nas grandes cidades, nas periferias, no interior profundo, nas universidades, nos presídios, nos hospitais, nas comunidades terapêuticas, nos parlamentos, nos tribunais, nos meios de comunicação, nas famílias e, sobretudo, nas igrejas locais espalhadas por todo o país. São dezenas de milhões de brasileiros cuja fé molda vocação, linguagem, conduta moral, vida comunitária, ação social e compreensão do mundo. Apesar disso, poucos grupos foram tão frequentemente retratados a partir de estereótipos. Para parte relevante da elite cultural brasileira, o evangélico costuma aparecer como personagem previsível: fanático, manipulável, pobre de repertório, politicamente instrumentalizado e quase sempre visto como ameaça à democracia [https://www.gazetadopovo.com.br/tudo-sobre/democracia/]. É uma descrição cômoda para eles, mas profundamente injusta para com os evangélicos. Ela, na verdade, reflete muito mais sobre os preconceitos de quem observa do que sobre a realidade de quem é observado. Por isso, a chegada de um documentário como O Brasil Evangélico, anunciado pela Brasil Paralelo, desperta expectativa. Não porque se espere uma peça de propaganda religiosa. O que se espera – e o que o tema exige – é algo muito mais importante: justiça narrativa. O Brasil precisa conhecer melhor quem são os evangélicos, como se deu sua ascensão, quais são suas diferenças internas, quais virtudes sustentam sua presença pública e quais desafios reais acompanham o seu crescimento. A lista de entrevistados já conhecida revela a amplitude da proposta. Entre os nomes estão André Mendonça, Silas Malafaia, Yago Martins, José Wellington Costa Junior, Teo Hayashi, JB Carvalho, Pastor Jack, Josué Valandro Jr., padre José Eduardo, Bernardo Küster, Edson Rebustini, Marcelo Crivella, Sóstenes Cavalcante e Damares Alves, entre muitos outros. A pluralidade chama atenção. Há lideranças pentecostais, neopentecostais, reformadas, comunicadores, atores da vida pública, parlamentares, juristas, pastores, intelectuais e até vozes católicas qualificadas, como a do padre José Eduardo, capaz de oferecer um olhar externo e fraterno sobre o fenômeno. Isso é relevante porque o “Brasil evangélico” não é um bloco monolítico. Não existe apenas um tipo de evangélico, uma única tradição evangélica, uma só forma de presença pública ou uma única linguagem teológica. Há o evangélico assembleiano, batista, presbiteriano, luterano, metodista, congregacional, neopentecostal, reformado, independente. Há o evangélico da periferia e o da universidade. O da igreja histórica e o da comunidade urbana contemporânea. O pastor midiático e o pastor anônimo que há décadas visita enfermos, aconselha famílias, enterra mortos, socorre dependentes químicos e mantém viva uma pequena comunidade de fé sem qualquer holofote. Há o parlamentar evangélico, o juiz evangélico, o empresário evangélico, o músico evangélico, o missionário evangélico, o jovem convertido, a mãe que ora pelos filhos, o idoso que atravessa a cidade para participar do culto. Reduzir tudo isso a um slogan político é intelectualmente preguiçoso. Reduzir tudo isso a Bolsonaro, Lula, direita, esquerda, urna, bancada ou eleição é mutilar a realidade. Em uma democracia, cidadãos religiosos votam, debatem, se associam, disputam ideias, elegem representantes e também podem ser eleitos Foi justamente esse o problema de produções recentes, como Apocalipse nos Trópicos, de Petra Costa. O documentário teve ampla repercussão e se apresentou como uma investigação sobre a relação entre religião evangélica e política brasileira. Mas, ao fim, o que fez foi reforçar uma caricatura já conhecida: a do evangélico como força quase apocalíptica, ameaçadora, manipulada por lideranças religiosas e mobilizada por um projeto de poder. É o velho vício de enxergar a fé popular brasileira apenas quando ela incomoda as elites. Não se trata de negar que existam problemas no campo evangélico. Existem. Há personalismos, abusos espirituais, confusões entre púlpito e palanque e espetacularização da fé. Nenhum retrato fiel pode esconder essas sombras. Mas uma caricatura nasce justamente quando se toma a parte pelo todo; quando se transforma um problema real em identidade total; quando se escolhem personagens convenientes para confirmar uma tese previamente definida. O Brasil evangélico não precisa ser canonizado. Mas também não pode continuar sendo demonizado. Foi com esse espírito que eu e Jean Regina tivemos a honra de atuar na qualidade de consultores da Brasil Paralelo e como entrevistados do documentário. Nosso desejo, desde o início, foi contribuir para que a produção pudesse fugir das simplificações e oferecer ao público um retrato mais justo desse povo que tanto bem faz ao Brasil. Um povo que, muitas vezes, chega antes do Estado, socorre antes da política pública, acolhe antes da burocracia e reconstrói vidas onde as instituições formais já desistiram. Quem conhece a realidade das igrejas sabe disso. Em muitas comunidades brasileiras, a igreja evangélica é a principal rede de pertencimento, disciplina moral, solidariedade, educação informal e esperança. Ela organiza famílias, recupera dependentes, ampara viúvas, visita presos, arrecada alimentos, sustenta missionários, educa crianças, consola enlutados e dá sentido à vida de milhões de pessoas. É evidente que esse povo também passou a ter presença política. Seria estranho se não tivesse. Em uma democracia, cidadãos religiosos votam, debatem, se associam, disputam ideias, elegem representantes e também podem ser eleitos. O Estado laico não exige que o cristão deixe sua consciência em casa antes de ingressar na arena pública. Laicidade não é exílio da fé. Laicidade, especialmente a de viés colaborativo como a nossa, é garantia de liberdade, inclusive para que pessoas religiosas participem da vida comum sem serem tratadas como intrusas. O problema começa quando a participação pública dos evangélicos é interpretada como ameaça em si mesma. Quando um artista fala politicamente a partir de sua visão de mundo, isso costuma ser chamado de engajamento. Quando um acadêmico fala a partir de sua matriz ideológica, isso costuma ser chamado de pensamento crítico. Quando um movimento social ocupa o debate público, isso costuma ser chamado de cidadania. Mas quando um cristão evangélico fala a partir de sua fé, logo aparece a acusação de fundamentalismo. Os evangélicos se tornaram uma das maiores forças sociais do país porque falaram a dezenas de milhões de brasileiros que se sentiram esquecidos por outras instituições Essa assimetria revela uma compreensão pobre de Estado laico. O Estado laico não é o Estado que silencia a religião, mas o Estado que não estabelece uma religião oficial e garante o livre exercício de todas – e, no caso brasileiro, ainda colabora com elas em razão de sua importância. A laicidade não existe para purificar o espaço público de convicções religiosas, mas para permitir que diferentes convicções convivam sob a proteção da Constituição. Por isso, compreender o Brasil evangélico é também compreender melhor o próprio Brasil. Não se trata apenas de religião. Trata-se de sociologia, cultura, direito, política, família, território, linguagem, música, assistência social, educação moral e esperança pública. Os evangélicos se tornaram uma das maiores forças sociais do país porque falaram a dezenas de milhões de brasileiros que se sentiram esquecidos por outras instituições. Onde muitos viam massa, a igreja viu gente. Onde muitos viam estatística, a igreja viu alma. Onde muitos viam problema social, a igreja viu alguém a ser chamado pelo nome. Talvez seja isso que tanto incomode. A fé evangélica cresceu sem pedir autorização às elites culturais. Cresceu nos templos simples, nas garagens, nas rádios comunitárias, nos cultos domésticos, nas praças, nos presídios, nas favelas, nas redes sociais e nas famílias. Cresceu por capilaridade, por testemunho, por conversão, por música, por pregação, por disciplina comunitária e por uma mensagem que, gostem ou não os críticos, ofereceu redenção, dignidade e futuro a milhões de brasileiros. Agora, esse povo precisa ser visto com seriedade e a Brasil Paralelo se propôs a isto. Não se espera que um documentário resolva todas as incompreensões. Nenhuma obra audiovisual é capaz de esgotar fenômeno tão vasto. Mas, se O Brasil Evangélico conseguir apresentar ao público um retrato honesto, plural e proporcional dos evangélicos brasileiros, já terá prestado um serviço importante. Não apenas aos evangélicos, mas ao próprio debate público nacional. O lançamento será no dia 8 de julho. A exibição será gratuita, mediante inscrição. Para participar, basta acessar o Instagram da Brasil Paralelo e seguir as orientações de cadastro. Estamos ansiosos. Não por vaidade, nem por espírito de disputa cultural vazia, mas porque o Brasil precisa olhar para os evangélicos sem medo, sem desprezo e sem caricatura. Precisa conhecê-los em sua grandeza e em suas tensões; em suas virtudes e em seus desafios; em sua fé e em sua presença pública. Um Estado laico maduro não tem medo do Brasil evangélico. Tem o dever de compreendê-lo.