Novas espécies de camaleões homenageiam Rosalind Franklin e Jane Goodall
6 Jul, 2026
Pesquisadores da África do Sul identificaram quatro novas espécies de camaleão do gênero Nadzikambia em florestas de montanha, chamadas de ilhas do céu, em Moçambique. As espécies são crípticas, isto é, não possuem características externas que visualmente as diferenciam das outras duas, Nadzikambia mjalensis, do Maláui, e N. baylissi, moçambicana, já conhecidas para o gênero. Os locais onde vivem, de difícil acesso, fizeram com que permanecessem desconhecidas dos cientistas por anos. Cada espécie é única de um monte no país africano. O isolamento geográfico fez com que populações das "ilhas", em um processo que data de cerca de 6 milhões de anos atrás, dessem origem às quatro novas espécies: - N. franklinae, batizada em homenagem à química britânica Rosalind Franklin (1920-1958), primeira pessoa a descrever a estrutura em dupla hélice do DNA; - N. goodallae, que homenageia a ativista e primatóloga Jane Goodall (1934-2025); - N. evanescens, cujo nome significa "desaparecendo", devido à condição ameaçada da espécie; - e N. nubila, do latim "nuvem", que caracteriza as montanhas nebulosas onde o réptil habita. O artigo descrevendo a descoberta saiu em abril deste ano na revista Vertebrate Zoology. Ele é assinado por Krystal Tolley, professora de zoologia da Universidade de Joanesburgo, e Werner Conradie, curador de herpetologia do Museu de Porto Elizabeth (Humewood) e pesquisador da Universidade Nelson Mandela, em George (África do Sul). O gênero Nadzikambia, popularmente conhecido como camaleão-selvagem, inclui espécies com hábito predominantemente arborícola, que passam boa parte do tempo no topo das árvores (dossel) em busca de pequenos insetos e outros invertebrados. Segundo a pesquisa, o hábito arborícola e a semelhança externa dos lagartos são algumas das razões que levaram essas espécies a passarem despercebidas por tanto tempo. "Ninguém olhava de fato para cima para procurá-las. E como os camaleões se camuflam tão bem ao seu habitat, não era óbvio encontrá-los, mesmo em árvores mais baixas. Foi necessário um esforço muito grande para tentar achá-los nessas montanhas", diz a pesquisadora. Na pesquisa, os especialistas analisaram 46 espécimes de Nadzikambia depositados no Museu de Port Elizabeth e no Museu de História Natural de Londres, incluindo aqueles coletados por Tolley e sua equipe nas florestas montanhosas de Moçambique. Os autores combinaram dados morfológicos, como número de escamas e anatomia interna, com dados genéticos obtidos de três genes nucleares e um gene do DNA mitocondrial (passado apenas pela linhagem materna) em uma análise de evidência total. Olhando externamente, porém, os animais apresentam pouca variação morfológica, tanto no número de escamas quanto na coloração. "É aqui que entram as ferramentas de análise de DNA. Embora possam parecer semelhantes externamente, as espécies possuem assinaturas específicas em seu DNA que são únicas de cada uma. O nível de diferença entre os genes analisados nos deixa extremamente confiantes de que são espécies distintas." "As florestas tropicais estão isoladas completamente umas das outras, separadas por savanas, de clima mais árido", acrescentou a bióloga. "O resultado é que não houve, ao longo dos anos, nenhum fluxo gênico [troca entre populações] entre os camaleões em cada ‘ilha’. Por causa do nível de variedade genética existente entre as espécies, podemos estimar que esse processo ocorreu provavelmente há cerca de 5 e 6 milhões de anos." Outro ponto levantado no estudo é em relação à conservação dos animais recém-descobertos. O desmatamento acelerado que vem ocorrendo no país africano ameaça o ecossistema único onde as espécies de Nadzikambia vivem. Por essa razão, os autores quiseram chamar a atenção para a importância de ativistas ambientais no epíteto específico de alguns dos lagartos. "Infelizmente, as inspiradoras mulheres da ciência que dão nome à espécie do Monte Namuli [N. franklinae] e do Monte Ribáuè [N. goodallae] não viveram até a data de publicação deste artigo, mas ainda assim nos sentimos honrados em apresentar esta homenagem a elas", escreveram os autores. "Jane Goodall, embora não tenha estudado camaleões, mas sim chimpanzés [Pan troglodytes], passou grande parte da sua vida na floresta junto aos seus objetos de estudo. A destruição de florestas e outros habitats, tanto no Monte Ribáuè quanto na área de distribuição do P. troglodytes na África Central e Ocidental, está levando as espécies que vivem em florestas ao declínio até a beira da extinção."