Ilona Szabó
7 Jul, 2026
Quando publiquei minha primeira coluna aqui, em dezembro de 2017, o mundo já vivia um período de mudanças aceleradas. Mas talvez não esperasse o grau de intensidade das transformações nos anos seguintes, quando definitivamente entramos numa era de crises sistêmicas e interconectadas. Passamos por uma pandemia; guerras voltaram ao centro da geopolítica; a inteligência artificial deu um salto impressionante. Os eventos climáticos extremos, cada vez mais frequentes, fizeram a degradação ambiental deixar de ser tema de nicho e ocupar o centro das preocupações econômicas e políticas. Organizações criminosas se fortaleceram e se expandiram para além das fronteiras, e se conectaram ao ecossistema do crime ambiental. O Brasil também mudou. Em meio a uma montanha-russa de fatos políticos, vivemos um período de fechamento do espaço cívico. Sobrevivemos à mais séria ameaça à nossa democracia desde 1964 e caímos em sucessivas crises institucionais. Passamos por retrocessos e avanços na segurança pública; incentivamos e criamos instrumentos financeiros inovadores para impulsionar bioeconomias – e abraçamos a COP30 em Belém como estandarte do reposicionamento do país em temas internacionais. Em um ambiente de tantas incertezas, tornou-se ainda mais difícil separar fatos de ruídos, urgências de prioridades. Mas nunca foi tão necessário. Meus interesses acompanharam essa transformação. Permaneci fiel aos princípios que orientaram todas as minhas interações, mas meu olhar foi incorporando novas lentes. Na semana passada, o Instituto Igarapé, do qual sou cofundadora, completou 15 anos de atuação do nível local ao global. Nosso foco, hoje, está na conexão entre as agendas de segurança, natureza e clima. Entendemos que ameaças como crime organizado, degradação ambiental e instabilidade climática não podem ser enfrentadas –e as soluções não podem ser construídas– isoladamente. É preciso trabalhar com todos os setores para enfrentar problemas que já não cabem em caixinhas separadas. Nessa evolução, fomos além do trabalho tradicional de um think tank, e cofundei novas iniciativas voltadas à implementação. Uma delas é a Green Bridge Facility, que busca reduzir riscos territoriais para viabilizar investimentos responsáveis e empreendimentos sustentáveis no Brasil e em outros países da Bacia Amazônica. A outra é o Regenera BioLab, que ancora um corredor ecológico na Mata Atlântica para demonstrar, na prática, como conservação, restauração florestal, agroflorestas, turismo regenerativo e novas formas de financiamento da natureza podem caminhar juntos em um modelo capaz de transformar e inspirar outras regiões. Este é meu último texto como colunista regular da Folha. Há momentos em que precisamos pausar, ouvir e repensar como melhor contribuir para um debate informado. Encerro esse ciclo, do qual tenho muito orgulho, profundamente grata por ter mantido uma troca tão inspiradora por quase nove anos. Voltarei a outros espaços desta casa sempre que tiver boas provocações a trazer. Sigo na vida cívica, nos meus canais institucionais e pessoais, por meio do Instituto Igarapé e das novas iniciativas, convencida de que, apesar das turbulências deste tempo, ainda é possível construir pontes e transformar conhecimento em ação. As perguntas evoluíram desde 2017. Minha disposição para buscar e construir as respostas – lado a lado com quem acredita no diálogo e na colaboração – continua a mesma.