Rolling Stones seguem relevantes ao evitar a nostalgia em novo disco

admin
9 Jul, 2026
Poucas bandas desafiaram tanto a lógica da longevidade quanto os Rolling Stones. Durante décadas, a pergunta nunca foi se haveria um último disco, mas quando ele chegaria. A morte de Charlie Watts, em 2021, parecia encerrar definitivamente essa história, mas o grupo encontrou um inesperado segundo fôlego com "Hackney Diamonds", de 2023. Como sempre, foi recebido como seu melhor trabalho em muitos anos, uma reação afetiva comum a cada novo lançamento da banda, mesmo que depois algumas edições revelem que o disco não é tão bom quanto as pessoas pensavam. Mas "Foreign Tongues", que chega às plataformas nesta sexta (10), pouco mais de dois anos depois, pode indicar que talvez os Stones tenham encontrado motivação sólida para seguir em frente. O grande mérito do disco é justamente evitar o peso da nostalgia. Em vez de montar uma coleção de autorreferências, a banda mistura elementos que sempre fizeram parte de seu repertório, como blues, rock, country, soul, disco e baladas, sem deixar que a habitualmente medíocre produção de Andrew Watt tire a personalidade dos Stones. Há momentos em que a mixagem privilegia graves exagerados e comprime excessivamente os instrumentos, mas, no conjunto, Watt consegue transmitir a sensação de que os músicos estão realmente tocando juntos, algo que muitas vezes desaparecia em trabalhos mais recentes. A abertura com "Rough and Twisted" mostra um rock vigoroso, construído sobre referências ao blues de Chicago e à tradição que moldou a banda. A música não tenta reinventar a roda, mas lembra por que os Stones continuam sendo uma referência quando se trata de transformar simplicidade em energia. Keith Richards e Ronnie Wood mantêm o diálogo entre guitarras que sempre caracterizou a banda, enquanto Mick Jagger canta com uma vitalidade difícil de imaginar para alguém que vai completar 83 anos no próximo dia 26. Na verdade, Jagger é o grande protagonista de "Foreign Tongues". O cantor alterna o registro grave com falsetes que remetem a discos como "Emotional Rescue", sem que isso soe como mera repetição. Em "Jealous Lover", essa escolha funciona especialmente bem. Já em "Mr Charm", ele adota uma postura mais agressiva, enquanto "Ringing Hollow" o aproxima novamente do country e do honky-tonk que os Stones exploram desde os anos 1960. Algo curioso é perceber a disposição da banda para comentar o mundo contemporâneo. Os Rolling Stones sempre refletiram o espírito de sua época. Não que "Foreign Tongues" repita a força de "Satisfaction" ou "Street Fighting Man", mas ela reaparece em letras que abordam autoritarismo, concentração de riqueza e polarização política. "Covered in You" critica a proliferação de líderes autocráticos, enquanto "Mr Charm" faz referências pouco sutis ao poder econômico e tecnológico. Essa preocupação temática impede que o álbum se transforme apenas em um exercício de memória. Ao mesmo tempo, os Stones evitam o tom panfletário. As críticas sociais aparecem diluídas em canções que continuam priorizando melodias fortes. Nem mesmo a banda mais poderosa em atividade no planeta dispensa as participações especiais que viraram regra na música pop. Steve Winwood, lenda do grupo britânico Traffic, acrescenta elegância aos teclados, enquanto Paul McCartney surge discretamente. Robert Smith contribui com sua atmosfera melancólica, e Chad Smith, baterista do Red Hot Chili Peppers, reforça o peso rítmico. Até Bruno Mars deu as caras no estúdio. Todos parecem compreender que o centro das atenções continua pertencendo aos Stones. O momento emocional do disco, porém, é Charlie Watts. Assim como em "Hackney Diamonds", gravações inéditas do baterista aparecem em algumas faixas, especialmente na explosiva "Hit Me in the Head". Suas batidas discretas e precisas continuam imediatamente reconhecíveis. Nem tudo funciona com a mesma eficiência. Há momentos em que o álbum parece depender demais de fórmulas conhecidas. "Never Wanna Lose You" é praticamente uma releitura de "Some Girls", enquanto outras canções recorrem a estruturas que os Stones dominam há décadas. Depois da poderosa "Back in Your Life", os Stones fecham o disco com uma interpretação despojada de "Beautiful Delilah", de Chuck Berry, um atestado de adoração ao blues totalmente desnecessário. Depois de tantos boatos de despedida que não se concretizaram, os Rolling Stones provam mais uma vez que continuam adiando o momento de deixar a festa. Enquanto isso, ainda vale a pena ouvi-los.