João Batista Damasceno: Devolvam o nosso ouro

admin
11 Jul, 2026
A cada vez que equipes brasileiras de práticas desportivas disputam campeonatos com equipes de outros países um sentimento de brasilidade invade o coração dos brasileiros e os velhos bordões de um país colonizado se reacendem. Um deles é o grito para que devolvam nosso ouro. O ouro reclamado, como se pudesse ser devolvido em forma de medalhinhas, foi levado das Minas Gerais para a Europa e contribuiu para o desenvolvimento do capitalismo industrial na Inglaterra. A violência para a apropriação era cotidiana, com submissão de trabalhos forçados a pessoas escravizadas trazidas da África e punição a quem se rebelava contra o pagamento do “quinto”. Foi aguçada com o esquartejamento de Felipe dos Santos e Tiradentes. Contribuindo com os exploradores não faltaram os traidores, dentre os quais Joaquim Silvério dos Reis. O que Portugal cobrava pela extração do ouro não era imposto. Era um arrendamento. As terras haviam sido apossadas e expropriadas dos seus habitantes nativos e a Coroa Portuguesa a arrendava mediante o pagamento da quinta parte de tudo o que fosse produzido. Quando reclamamos do que foi entregue ao Estado português nos referimos apenas a um quinto. Mas as outras quatro partes, ou seja, os quatro quintos restantes não eram entregues àquele Estado colonial. A aristocracia que dele se apropriava é que deu fim a tais recursos em seu próprio proveito. Não é ao Estado português que devemos reclamar de terem levado nosso ouro, nem devemos ficar limitados à apropriação desta riqueza no passado. O ouro não foi a única riqueza da qual fomos expropriados. O Brasil foi e continua sendo espoliado e suas riquezas remetidas para o exterior em prejuízo do povo brasileiro. A lógica colonial que nos tornou presa da apropriação por grupos estrangeiros se mantém e nossas riquezas continuam sendo remetidas para grandes corporações ou grandes fundos de apropriação, denominados fundos de investimento. Eliminados do campeonato mundial de futebol de 2026 pela Noruega, além da análise das habilidades técnicas e táticas das duas equipes, faltou-nos avaliar outras diferenças entre os dos países. Enquanto a Noruega é a 12a produtora de petróleo do mundo o Brasil é o 7o maior produtor, sendo que o pré-sal corresponde a 80% deste montante. Isto a mídia não mostra. No imaginário e no noticiário brasileiros os países petrolíferos estão no Oriente Médio. Nossas riquezas são cotidianamente apropriadas por empresas estrangeiras. São empresas as apropriadoras das riquezas. Os governos de seus países apenas dão cobertura para o saque, assim como foi a ocupação do Nordeste brasileiro pela Companhia das Índias Ocidentais (WIC), com o apoio do Estado holandês. Com menor produção petrolífera a Noruega constituiu um Fundo Soberano e entrega aos seus cidadãos qualidade de vida e certeza de futuro invejável. Mas os brasileiros destituíram a presidenta que defendia o pré-sal e constituímos o orçamento secreto, as emendas pix e a continência à bandeira dos EUA. Não quero medalhas. Quero que nossas riquezas deixem de ser apropriadas em prejuízo do povo brasileiro. João Batista Damasceno é Doutor em Ciência Política pela UFF e professor associado da Uerj