Ronaldo Lemos
12 Jul, 2026
Desde 1961, a Fundação Körber organiza na Alemanha encontros com lideranças políticas, econômicas e acadêmicas para debater o futuro europeu. Na semana passada participei do encontro mais recente em Berlim com o tema "Potências Médias e Geopolítica da Tecnologia". Na mesa estava Ana Palacio, ex-chanceler da Espanha (que me confessou ser fã de João Gilberto e Caetano Veloso). Além de membros da chancelaria alemã, representantes da Índia, Indonésia, Japão, África do Sul, Brasil, México e outras "potências médias". Em face da ascensão da China e dos Estados Unidos, esse grupo tão diverso está agora reunido sob o chapéu comum de "potências médias". O evento marcou também a publicação do mais novo estudo da Fundação, o "Relatório das Potências Médias Emergentes 2026". Uma análise multinacional sobre temas de política externa. O relatório perguntou: "Como você avalia a influência dos EUA globalmente?". No grupo formado por África do Sul, Alemanha, Brasil e Indonésia, menos de 25% dos especialistas consultados afirmam ser positiva. O caso da Alemanha é notável. Em 2024, a avaliação era quase 80% positiva, e hoje é 10%. Queda vertiginosa em dois anos. A Índia, por sua vez, tem avaliação positiva próxima a 50%. Quando a mesma pergunta é feita sobre a China, as respostas mudam. O grupo África do Sul, Brasil e Indonésia responde que a influência é positiva acima de 74% (com o Brasil na liderança com 83%). A Índia fica em apenas 23% e a Alemanha com apenas 14%. O principal tema do encontro foi soberania digital em face da questão da inteligência artificial. Como bem enfatizou Ana Palacio, a IA redefine a ideia de poder. Essa tecnologia gera uma convergência inédita entre indústria, defesa, administração pública, segurança, educação e mais. A nova topografia do poder é formada simultaneamente por energia, dados, chips, minerais críticos, cabos submarinos, plataformas digitais e modelos de IA. Cada "potência média" precisa fazer um "teste de realidade" e mapear suas dependências, identificar riscos, parceiros e construir capacidades tecnológicas mínimas estratégicas. Nesse contexto, regulação sozinha não é suficiente. É preciso conjugar regulação com política industrial. O maior risco para uma potência média é virar apenas "usuária" ou apenas uma "reguladora" de tecnologias desenhadas em outros países. Dois lugares de perigosa vulnerabilidade. Na minha fala enfatizei três elementos essenciais para o Brasil: energia, terras raras e minerais críticos, além de modelos de IA de código aberto. O jogo da IA é um jogo de energia. Como diz o fundador da Nvidia, Jensen Huang, o negócio da empresa não é fabricar chips, mas transformar elétrons em tokens, energia em inteligência. Temos oportunidades imediatas na área. Nossa matriz energética é predominantemente limpa. E temos potencial gigantesco em biometano, capaz de gerar simultaneamente empregos, independência e energia. Sobre minerais críticos, temos nas mãos a oportunidade histórica de rever nossa política mineral. Já falei sobre esse tema aqui na coluna ao contar a história vergonhosa da monazita no país. Tal como fez a Indonésia com o níquel, podemos começar a gerar valor agregado localmente. Por fim, modelos de IA de código aberto (como o da francesa Mistral) podem ser retreinados e controlados localmente. Diante da IA, potências médias precisarão fazer escolhas. Ficar parado não é uma opção.