Após completar 175 anos, Corning avança do vidro e da fibra ótica para a infraestrutura de IA

admin
18 Jul, 2026
Depois da lâmpada de Thomas Edison, do Pyrex, dos bulbos de TV, dos catalisadores no carros, do Gorilla Glass nos smartphones e da fibra ótica que trafega dados pela Internet, a próxima fronteira da Corning é a inteligência artificial. Ao comemorar seus 175 anos de história, a companhia mira na infraestrutura da IA ao reduzir a distância entre o semicondutor das placas gráficas (GPUs) e a fibra ótica que leva os dados, assim como na gestão térmica para evitar derretimento de placas que treinam as IAs nos data centers. Em conversa exclusiva com Mobile Time, o presidente da empresa na América Latina e Caribe, Flávio Guimarães, detalhou outras áreas que a quase bicentenária busca avançar, como energia solar, setor automotivo e novas fronteiras em telecomunicações. Mobile Time – Como a Corning conseguiu manter sua relevância por quase duas centenas de anos? Flávio Guimarães – Uma das explicações é porque a Corning começou muito antes das telecomunicações. A origem da Corning, o seu primeiro boom, foi com o vidro borosilicato que usamos para fazer invólucro da lâmpada de Thomas Edison. Perceba, a Corning não é uma empresa de um produto ou de um segmento. Somos uma empresa de ciência dos materiais. Usamos a ciência para resolver problemas seculares, como diz o nosso CEO global, Wendell Weeks. São desafios seculares da humanidade. Nós criamos algo para resolver um problema e ficamos nesse mercado por décadas. Depois a gente percebe uma evolução. Foi assim com as televisões. Nas primeiras TVs, o bulbo de vidro era da Corning. Depois a TV foi evoluindo, foi ficando mais flat, passou para tecnologia LCD, LED ou LED, e fomos acompanhando. Ou seja, nós meio que ‘matamos o nosso próprio produto’ e desenvolvemos outros para suportar a nova onda de tecnologia. Isso aconteceu em telecomunicações, um dos segmentos mais recentes da Corning. Conte mais sobre essa evolução em telecomunicações. Isso é um movimento que veremos em telecomunicações, com essa transição das infraestruturas de fibra ótica para as grandes redes de fibra ótica para processamento de dados nos data centers. A fibra ótica surge de pesquisas e patentes na década de 1970. Depois começou a virar comercial no final dos anos 1980 e ganha escala com a demanda da internet, de processamento de dados da internet. Havia tecnologias como cabo de cobre e rádio de alta capacidade. Mas chegou o momento em que o mercado precisava começar a transmitir mais imagem, mais vídeo, e aí a fibra ótica virou relevante. Começou a ganhar escala mundial no final da década de 1990 e aqui no Brasil foi por volta de 2011 e 2012 que começaram a surgir as grandes primeiras redes de fibra. Como é esse caminho que a Corning quer trilhar na inteligência artificial? Nós temos as primeiras pesquisas mirando tendências de autoprocessamento de dados. Isso vem desde a década de 1980. Na nossa última reunião global, o nosso vice-presidente de de R&D, que é brasileiro, Cláudio Mazzalli, mostrou um slide sobre a possibilidade do Co-packing de Optics. Ele resgatou [da década de 1990] esse slide e mostrou para todos os líderes globais da Corning. Então, esse é um um tema fundamental que faz criar longevidade. Agora, nós estamos tentando diminuir o espaço entre o distribuidor ótico e a GPU da NVIDIA. Anunciamos recentemente uma parceria global. Em maio, a NVIDIA fez um investimento [de US$ 3,2 bilhões] para assegurar a Corning como parceira tecnológica. Isso é algo que aconteceu antes com Gorilla Glass. A Samsung comprou ações [US$ 3,2 bilhões em 2013] da Corning. São movimentos que acontecem porque as empresas enxergam que precisam ter a Corning como uma parceira científica sólida. Mas o grande tema com a NVIDIA é fazer a fibra ótica chegar o mais próximo possível da GPU do processador para diminuir latência. Hoje, o processamento da GPU é próximo de 2.000 W de potência, o que derrete as placas de circuito impresso. Esse é um desafio importante, tecnológico e científico. Não é algo que vai vir amanhã. Estamos começando a ver as primeiras soluções de co-packing optics. São caixinhas de conexão fibradas. Mas a ideia é que isso trará uma disrupção em termos da arquitetura da área da GPU com a placa de circuito impresso. A área dos semicondutores com a área de fibra ótica em convergência. Veremos muita disruptura aí que a gente ainda não sabe nem exatamente o que vai acontecer. Mas temos cientistas trabalhando dos dois lados [Corning e NVIDIA] para chegar nas novas soluções. Como está sendo desenhada essa estratégia de inteligência artificial e infraestrutura? Imagino que não envolva apenas co-packing, mas também outras tecnologias como feixe de luz e a evolução da fibra ótica? Sim. Temos a divisão de telecom da Corning. Temos especialistas em vidro. E temos a área de advanced optics. Nós trabalhamos com a ASML, Zeiss. E trabalhamos há muitos anos com as máquinas de litografia que fazem os chips de desenvolvedores. São poucas e complexas unidades que produzimos por ano desse conjunto de lentes. Esse conhecimento que temos em semicondutores, fibra ótica e mais o desafio do processamento e do calor em IA, nós queremos combinar. O vidro é altamente resistente a calor. O outro lado que vemos são os tamanhos dos datacenters com milhares de quilômetros de fibra. Vai chegar um ponto que será impossível conectar tanto cabinho de fibra óptica em um pequeno espaço. Como miniaturiza? Precisamos repensar e diminuir a arquitetura com essas interconexões. São desafios que os clientes impõem para nós. A Corning passou por duas guerras mundiais, a gripe espanhola, a crise de 1929, o auge da guerra fria com a corrida espacial/balística, a crise do petróleo em 1970, a década perdida em 1980, a bolha da Internet em 2000, a crise de 2008 e, mais recentemente, a pandemia do Novo Coronavírus e a crise dos semicondutores. Como a Corning vê a possibilidade de uma bolha e uma nova crise com a IA? O nosso CEO deu uma entrevista na CNBC sobre o risco de uma nova bolha, como em 2000. Nossa história de 175 anos quase foi interrompida naquela bolha da Internet. O nosso CEO respondeu e temos colocado isso para o mercado em dois aspectos: - A demanda – nós vemos compromissos extremamente sólidos das empresas que estão guiando a infraestrutura para IA, como Google, Meta, Microsoft, Amazon, Oracle, NVIDIA e Broadcom. Essas empresas estão fazendo investimentos para os próximos 10 anos. E essas empresas têm ‘deep pockets’ [fundos e capitais robustos para investir] e a Corning assume compromissos para atender essa demanda, inclusive com fábricas novas que estamos fazendo para atendê-los. - A infraestrutura física – nós precisamos de infraestrutura para IA. Isso está bem claro. O que não entendemos ainda é como a IA vai seguir na parte das aplicações. E como serão monetizados. Mas independentemente disso, nós precisamos ter infraestrutura e ela tem que vir antes da aplicação e da monetização. É uma demanda para a qual nos preparamos para os próximos cinco anos. Isso é similar ao ciclo em telecomunicações que cria a rede primeiro para depois colocar as aplicações e monetizar. Mas agora a nova onda é a construção de data centers. Outro movimento de novas avenidas da empresa é em energia solar? Como está esse movimento e qual a relação disso com o avanço da IA? Dentro da cadeia de energia solar, nós tínhamos uma empresa chamada Hemlock, que produz polisilício, um material base para construção dos wafers que ficam dentro dos painéis solares que absorvem o calor do sol e ajudam na transformação em energia. A Hemlock vinha de dentro da Corning, mas a gente enxergou essa oportunidade de avançar na cadeia. Então, existem incentivos do governo norte-americano para isso. Portanto, nós construímos uma fábrica enorme em Michigan que entrou em operação no final do ano passado. Estamos mostrando os primeiros resultados neste ano de 2026. Foram dois anos de investimento. Mais recentemente, fizemos aquisições de sites de uma empresa chinesa nos Estados Unidos para entrarmos nesse mercado. Há a demanda por energia em data centers. A energia solar é uma boa alternativa, pois permite expandir fontes de energia de forma mais rápida, mais barata e mais sustentável. Para nós isso é importante, por estarmos na cadeia tecnológica e na cadeia de suprimentos de energia solar. Isso é uma oportunidade também que estamos abraçando através da fibra ótica. Uma terceira oportunidade que olhamos é o catalisador cerâmico que vai hoje dentro dos carros. Esse dispositivo é uma cerâmica que através de uma reação química consegue absorver CO2. Portanto, se absorve o CO2 dentro do catalisador do carro, será que a gente também não consegue capturar CO2 em outras aplicações? Se olharmos, os data centers também vão ter fontes alternativas de energia termoelétrica. Vemos o uso da tecnologia de cerâmica com possibilidade de absorver CO2 dessa geração de energia mais poluente. Solar é só para o mercado dos EUA? Nos Estados Unidos, há a necessidade de expandir a matriz de energia existente. E termoelétrica é a principal matriz americana, embora muito poluente. Então, precisamos resolver esse problema. É uma outra oportunidade que estamos enxergando. E o uso de solar para a América Latina? É um mercado (correndo) em paralelo. Por enquanto, a América Latina está fora dos nossos planos para entrarmos no mercado de energia solar. Por quê? Primeiro queremos entender e aprender nos Estados Unidos. O mercado de energia solar precisa ter escala. Se olharmos a produção atual, o supply chain de equipamento para energia solar está nos Estados Unidos. E entramos 100% autônomos no mercado de supply chain de energia solar, desde a produção do polysilicone do wafer até as placas de painel solar. Temos a solução completa. Isso é viável nos Estados Unidos devido aos incentivos fiscais locais. Mas estamos começando em menor escala que empresas na China, por exemplo. E o mercado brasileiro é totalmente aberto aos chineses, não vamos chegar com uma placa de painel solar competitiva no Brasil, México ou Argentina. Mas apostamos no longo prazo, pois queremos entender a cadeia e trazer inovação. Em uma frente mais tradicional para a Corning, como está o mercado de vidro, como telas e vidro de proteção para celulares? Nós enxergamos o nosso negócio de displays e vidros para eletrônicos como um negócio que precisamos focar em eficiência operacional. Não temos mais uma onda de crescimento, como nas décadas anteriores. O mercado de celulares está entrando em um ritmo de mercado de normalidade e maturidade com a troca habitual de celulares. Não vemos mais tanta inovação nos dispositivos para impulsionar grandes trocas. Portanto, não é um como um mercado que está guiando enorme crescimento para Corning nos próximos anos, mas é um segmento que precisamos ser mais eficientes e competitivos. Temos que lançar um vidro mais eficiente, mais competitivo. E estamos. Temos demonstrado bem nos nossos resultados financeiros ano a ano que conseguimos manter um nível de margem bastante atrativo para o negócio, apesar de não crescer em volume tão forte. Mas há novas frentes em que a Corning quer trabalhar em vidros? Ha cientistas de outras empresas observando novas soluções de vidro com a gente. Um exemplo recente é a Ferrari [Luce] elétrica. Tudo dentro do carro tem um uma interface baseada em vidros. Esse é o nosso Fusion 5, um vidro dentro da nossa unidade de autoglass. Foi um projeto super especial para a Corning. Nosso CEO global foi envolvido, foi no lançamento da Ferrari na Itália e usamos a Ferrari como um showcase de aplicação. Falo isso porque estamos olhando esse mercado dos carros autônomos e dos carros elétricos. Os carros do futuro terão muito mais interface com o ser humano dentro do carro. Outro mercado que observamos é o de sensores e radares, como a tecnologia Lidar, que é usada para enviar e receber um sinal para controlar o carro. Isso precisa de lentes super especiais, que não refletem nada, com baixíssima refletividade, para não dar problema de sinal na leitura do sensor. Como a região da América Latina e Caribe colabora com essas novas empreitadas? Os mercados que mais colaboramos é o automotivo. A maior parte das vendas são para Brasil e Argentina. No Brasil temos a adaptação dos motores para etanol que precisa de tecnologia de catalisador. Outro mercado em que atuamos é o de lifescience, com materiais para diagnóstico clínico e vacina, por exemplo. E telecom é o terceiro mercado. Fizemos a mudança de FTTH para data center, crescemos dez vezes em dez anos. Nós olhamos o global, os hyperscalers estão escolhendo o Brasil como o grande mercado. E tem demanda local. Hoje, como está a demanda para os produtos e serviços da Corning na nossa região? Principalmente em data centers? Temos começado a ver projetos de data centers, especialmente cotação, desde meados de 2024. Em 2025 foi mais forte com um boom de implementações. Em 2026, nós vemos um pipeline de engajamento com o cliente mês a mês. Mas veremos projetos começarem a ser definidos no segundo semestre deste ano e mirando implementação mais para 2027 e 2028. Esse ano está sem crescimento. Mas o mercado deve dar um salto em 2027 e 2028 com a chegada de players chineses e norte-americanos. Qual o futuro da Corning na América Latina? Há espaço para crescer em quais segmentos? Quais os planos em curto prazo? O nosso CEO colocou um desafio no ano passado para os gestores, nós apresentamos o estudo e ele fez a provação dos próximos 175 anos. A grande conclusão é que temos dois pilares: precisamos ser uma empresa de performance, gerar caixa e sermos autossuficientes para investir para os próximos 20 anos. Investimos 1% do faturamento em R&D. Queremos acertar em uma grande onda. Nós apostamos na IA na década de 1990 e essa é a próxima onda. Temos muitas soluções prontas e outras em laboratório. Vamos capturar isso para os próximos dez anos. Na América Latina, uma onda de crescimento importante para nós está em telecom. Estamos nos preparando para ter um share relevante desse mercado na região.