Zero – uma página em branco

admin
19 Jul, 2026
... Ou uma pauta em branco, se eu fosse um músico. Meus dedos dedilhariam o violão ou tocariam as teclas do piano em busca de melodias, ou então meus lábios soprariam o bocal de um pistão ou sax... Enfim, buscaria sons para me expressar. Por que preciso me expressar? O silêncio prolongado é insuportável para quem vive sob a tutela dos sentidos. E olha que não falo de celulares com seus sininhos intermitentes capturando nossa atenção, mas sim de estar sentado, admirando o pôr do sol, o balançar das folhas dos arbustos vizinhos sobreviventes, ouvindo o trinado dos pássaros que modulam a tarde e o barulho dos motores dos carros voltando pra casa. A minha rua não é muito movimentada, há uma escola ao lado, com a algazarra benfazeja da garotada indócil. Quais as diferenças de ser criança ontem e hoje? E como será no ano que vem, com a velocidade estonteante das novas tecnologias? Como o velho responderá ao novo? Como o burburinho externo ofuscará o silêncio interno? Às vezes sinto saudade de quando éramos vento e passeávamos pelo infinito montados em cavalos alados, as crinas esvoaçantes, em uma brincadeira infantil. Depois fui pedra, virei planta e me tornei animal, até despertar a mente e ser gente. Aí fu...! “O bicho” pegou! Passamos a pensar, começamos a fazer escolhas. Hoje temos aviões, embora possamos voar com o poder da imaginação. Porém, com tudo que nos é oferecido ou impingido em forma de imagens e ruídos por minuto, quem vai querer imaginar? O sentido da visão engoliu o da audição. Muitos bichos moram dentro de nós, esperando ser domados e lapidados, para que novamente estejamos aptos, agora conscientemente, a voar, como seres alados que somos. Voemos, podemos. Vamos! Ah, que música, que sons, essas palavras produziram? Espero que tenha sido o desejo de encontrar e curtir o silêncio dentro de você!