Goleiro que virou lateral abre ação milionária contra o Corinthians por desistência da contratação
22 Jul, 2026
Goleiro que virou lateral abre ação milionária contra o Corinthians por desistência da contratação O Corinthians voltou a enfrentar um imbróglio judicial envolvendo as categorias de base. O lateral-esquerdo Reginaldo Borim, de 19 anos, ingressou com uma ação na Justiça do Trabalho contra o clube cobrando R$ 10,5 milhões em indenizações após a desistência da contratação, motivada pela repercussão envolvendo seu passado como goleiro. A informação foi publicada pelo ge.globo. Em agosto de 2024, durante a gestão de Augusto Melo, o Corinthians chegou a firmar contrato com o atleta, de então 17 anos, que seria integrado à equipe Sub-18. No entanto, o acordo acabou sendo desfeito poucos dias depois, após uma polêmica envolvendo seu registro no Boletim Informativo Diário (BID) da CBF. Na ação, protocolada em junho deste ano e ainda sem decisão judicial, Reginaldo solicita R$ 10 milhões referentes à multa por rompimento unilateral do contrato, R$ 500 mil por danos morais, R$ 70 mil pela rescisão antecipada e R$ 16 mil correspondentes a quatro meses de salários que, segundo a defesa, não foram pagos. Em contato com a reportagem do ge.globo, os advogados do jogador alegam que o desligamento ocorreu "sem notificação formal, processo interno, pagamento de qualquer verba rescisória e contraditório", deixando o atleta "sem contrato anotado, salários recebidos e qualquer documento rescisório". Procurado pela reportagem, o Corinthians informou que não comenta processos judiciais em andamento. Já a defesa do atleta afirmou que a ação tem como objetivo "regularizar a situação decorrente do rompimento abrupto e injusto do contrato" — confira a nota abaixo. Segundo os representantes de Reginaldo, o episódio também provocou consequências pessoais ao jogador. A ação afirma que ele desenvolveu um quadro depressivo após a dispensa, estando em tratamento médico e psicológico, além de ter sua carreira profissional comprometida. O processo relata ainda que o atleta deixou Jaú, no interior de São Paulo, para morar no alojamento do Parque São Jorge após acertar com o Corinthians. Depois de assinar contrato e até anunciar a transferência nas redes sociais, viu o acordo ser encerrado devido à repercussão causada por uma informação equivocada registrada no BID. Na ocasião da rescisão com o XV de Jaú, Reginaldo apareceu no sistema da CBF como goleiro, posição em que atuou por um curto período antes de retornar à lateral esquerda. Conforme explicou seu pai ao ge.globo na época, o jogador atuou como goleiro por apenas seis meses, não se adaptou e voltou a jogar na linha. A defesa anexou ao processo declarações do então diretor das categorias de base do Corinthians, Claudinei Alves, concedidas ao ge.globo em 2024. Na época, o dirigente admitiu que a contratação foi cancelada em razão da pressão sofrida internamente, apesar da avaliação positiva sobre o atleta. "Podemos estar acabando com a carreira de um garoto, tenho esse sentimento, mas estou mandando embora. Paciência", disse Claudinei. Com base nessa declaração, os advogados argumentam que o ex-dirigente reconheceu previamente os possíveis danos ao atleta e assumiu o risco de provocá-los. "O próprio dirigente responsável pela decisão admitiu consciência antecipada do dano, reconheceu que a dispensa ocorreu por pressão interna do Conselho do clube e revelou indiferença deliberada às consequências da medida. Essa configuração caracteriza, na doutrina civilista, o dolo eventual. No direito do trabalho, afasta qualquer equiparação ao exercício regular do poder rescisório e situa a conduta no campo do abuso de direito", sustentam os representantes legais de Reginaldo. Também procurado pela reportagem, Claudinei Alves ainda não havia se manifestado até a publicação da matéria. Entenda o caso Reginaldo atuava como goleiro pelo Rolândia-PR, em 2023, e chegou a figurar na reserva do XV de Jaú na mesma posição. De acordo com o então diretor da base corinthiana, Claudinei Alves, o jogador passou por avaliação antes de assinar com o clube. A ficha do atleta indicou notas cinco nos quesitos técnico e tático, e seis nos aspectos físico e comportamental, em uma escala que vai até nove. "Para chegar no Corinthians e ter nota oito ou nove, o atleta tem que vir muito bem formado. A maioria que entra aqui é cinco, seis, sete, que já é muito boa. Três anos de contrato é o padrão nosso. Se você faz contrato de um ano, daqui a pouco o menino desponta e você acaba perdendo o atleta. Se não dá certo, a gente rompe (o contrato)", afirmou Claudinei. A mudança de função no campo não preocupou o pai do atleta, também chamado Reginaldo. Segundo ele, a passagem pela meta foi temporária, ressaltando a polivalência do filho. "Ele sempre jogou na linha, quis se aventurar uns seis meses no gol, não gostou, voltou de novo para a linha e seguiu a carreira. O moleque é bom, nasceu com o dom. Em qualquer posição que colocar ele joga, é moleque diferenciado, quem entende do jogo e tem olhar clínico percebe. O importante é que ele dá conta do recado. Infelizmente, muitas pessoas não têm essa capacidade: se joga no gol, não joga na linha. Meu filho pode jogar em qualquer posição", disse Reginaldo. Além disso, a ficha de avaliação do jogador contou com os nomes de Claudinei Alves e o empresário Lima no campo "indicação", embora o pai do atleta negue que houve a participação de um agente. O diretor-adjunto Valmir Costa, o gerente geral Claudinei Muza, o coordenador tático Batata e o técnico Finazzi, do Sub-16, também assinaram o documento. No entanto, não se constatou a assinatura de Sandro Silva, coordenação de captação, segundo a reportagem. Em meio a diversas contratações, o Corinthians, sob a nova gestão, reativou as categorias intermediárias, casos do Sub-16 e Sub-18, que não possuem calendário oficial para a temporada. De acordo com Claudinei Alves, a ideia é projetar novos atletas em excursões internacionais durante o ano. Em agosto, vale lembrar, o Sub-18 Corinthians disputaria um torneio na Nigéria, mas não obteve os vistos. "Fizemos o contrato dos garotos porque teremos jogos no exterior, como na China no final do ano, Las Vegas. Não podemos desfalcar o Sub-20 ou a equipe principal para fazermos excursão. Vamos levar jogadores em projeção e atletas que não estão sendo aproveitados. A ideia é fazer dinheiro com isso, algo que o Santos fazia muito bem. Ano passado, por exemplo, trouxe 1,5 milhão de dólares com excursões", complementou o dirigente. Em maio de 2025, Reginaldo acionou a Justiça para cobrar R$ 2 milhões do XV de Jaú pelo cancelamento de sua contratação. Em abril deste ano, a Justiça de São Paulo indeferiu o pedido em primeira instância. No processo, a defesa do clube do interior comprovou, por meio de súmulas oficiais, que o atleta atuou como goleiro pelo Rolândia nos Campeonatos Paranaenses Sub-17 e Sub-20 de 2023, antes de se transferir para o XV de Jaú para a disputa do Paulista Sub-17 de 2024. Foram anexadas, ainda, declarações do próprio jogador admitindo a passagem pela posição. A sentença destacou que a transição de função ou a polivalência tática na base é "uma circunstância absolutamente normal e corriqueira no desenvolvimento de jovens atletas, não constituindo nenhum demérito ou ofensa à honra", concluindo que não houve ato ilícito por parte do XV de Jaú. Confira a nota da defesa de Reginaldo enviada ao ge.globo "O atleta Reginaldo Borim foi contrato pelo Corinthians em 2024, quando tinha 17 anos, e teve o contrato rompido sem nenhuma justificativa legal. Nesse sentido, a ação judicial visa regularizar a situação decorrente do rompimento abrupto e injusto do contrato. O atleta não recebeu nenhum pagamento e ainda passou por forte constrangimento em razão da repercussão negativa do seu desligamento. A nossa expectativa é que o Corinthians compareça na audiência designada para o dia 07/08 e a situação já seja resolvida por meio de um acordo. Estamos certos que o acordo é o melhor caminho para ambas as partes. Dr. Kim Rafael Serena Antunes – Escritório Calazans & Serena Antunes"