Forma contagiosa de câncer se espalha entre peixes em lago na fronteira entre EUA e Canadá
25 Jul, 2026
Há mais de uma década, algo estranho vem acontecendo no lago Memphremagog, que fica entre Vermont, nos Estados Unidos, e Québec, no Canadá. Ali é o lar do bagre-cabeçudo-marrom (Ameiurus nebulosus). Em 2012, pescadores começaram a notar que alguns deles estavam cobertos de tumores pretos. Biólogos examinaram os espécimes e concluíram que eles tinham câncer de pele. Os chamados melanomas são raros em bagres, porém mais de um terço dos que vivem no lago apresentavam esses tumores. Agora, pesquisadores sugerem saber por que: uma forma contagiosa da doença está se espalhando pelo Memphremagog, relataram eles em um artigo publicado na última quarta (22) na revista Nature. O surto começou com um único bagre, na avaliação dos cientistas. Ele desenvolveu um tumor, que liberou células cancerígenas na água. Essas células, então, invadiram outros espécimes. A descoberta do primeiro câncer transmissível em peixes está levando cientistas a questionar o quão disseminado esse fenômeno pode ser. "Isso é tão raro quanto pensamos, ou simplesmente não estamos procurando?", perguntou a geneticista Julie Dragon, da Universidade de Vermont (EUA), uma das autoras do novo estudo. Em 2014, biólogos do Departamento de Pesca e Vida Selvagem de Vermont procuraram Dragon. Eles queriam a ajuda dela para entender por que os bagres do lago estavam adoecendo. A luz ultravioleta é uma causa comum de melanomas. Mas parecia improvável que essa fosse a origem dos problemas para os bagres, que vivem na lama do fundo de lagos e são mais ativos à noite. A equipe científica partiu para a avaliação de outras possibilidades, entre as quais os efeitos da poluição de um aterro sanitário próximo e infecção por micróbios, que às vezes podem desencadear câncer. No entanto, os níveis de poluentes eram baixos nos peixes, e tampouco havia evidências de vírus ou bactérias relacionadas a câncer. Dragon decidiu examinar de perto o DNA dos bagres, bem como o DNA mutado nos tumores deles. Certas variações genéticas podem tornar animais (e pessoas) altamente vulneráveis ao câncer. Ela esperava que cada célula cancerosa fosse geneticamente mais semelhante ao bagre de onde veio. Em vez disso, todas as células cancerosas eram intimamente relacionadas entre si, não aos animais nos quais os tumores estavam crescendo. "Eu disse: ‘Cometemos um erro. Isso não pode estar certo’", lembrou Dragon. Os pesquisadores recomeçaram tudo do zero e o resultado se repetiu. Os tumores não tinham origem nos bagres que os carregavam. Cada vez que analisavam o DNA de um novo peixe, esse padrão se tornava ainda mais evidente. Os cientistas começaram a considerar então que os bagres fossem vítimas de uma forma contagiosa de câncer. Desde o Renascimento, estudiosos especulavam que os cânceres poderiam ser contagiosos. Em 1603, o médico português Rodrigo de Castro imaginou tumores "exalando um vapor horrível" que poderia transmitir o câncer a novas vítimas. Quando mais tarde cientistas descobriram que o câncer surge principalmente de mutações em nosso próprio DNA, a noção de "pegar" câncer caiu em desuso. Foi só no início dos anos 2000 que surgiram evidências concretas de que alguns cânceres transmissíveis eram reais. Os cães são hospedeiros de um deles, conhecido como CTVT. Durante o sexo, as células cancerígenas podem se espalhar de um cachorro para outro. Estudos do DNA desses tumores sugerem que todas as malignidades descendem de um cão que viveu há vários milhares de anos. O CTVT raramente é letal. O mesmo não se pode dizer de um câncer contagioso que acomete diabos-da-tasmânia. A doença aproveita-se das frequentes e sangrentas brigas entre os animais. Quando um deles arranca com uma mordida o tecido tumoral de outro, as células cancerígenas viajam pelo seu corpo até chegar ao próprio rosto. Esse câncer surgiu apenas nas últimas décadas, mas já levou os diabos-da-tasmânia à beira da extinção. Em 2015, ao longo das costas atlânticas do Canadá e dos EUA, pesquisadores encontraram mariscos de casca mole e outras espécies devastados por um câncer semelhante à leucemia. Descobriu-se que os mariscos infectados liberavam células cancerígenas na água do mar, e os mariscos saudáveis nas proximidades as absorviam. Mais recentemente, cientistas descobriram um câncer transmissível em moluscos no Pacífico, assim como em águas europeias. Essa descoberta reforça a ideia de que cânceres transmissíveis podem surgir em qualquer lugar, inclusive em nossa própria espécie Agora, Dragon e seus colegas dizem ter encontrado um novo câncer contagioso em um hospedeiro completamente novo. Eles estão convencidos de que todos os tumores no Memphremagog vieram de uma única célula cancerígena ancestral. As estratégias de acasalamento daqueles bagres podem ter dado às células de melanoma uma chance de se espalhar, já que os peixes se aglomeram em águas rasas para desovar. "Eles ficam todos uns em cima dos outros", afirmou Dragon. Nessas aglomerações, os bagres em desova podem morder ou arranhar uns aos outros, e os ferimentos podem expô-los a células cancerígenas flutuantes. Michael Metzger, que estuda cânceres contagiosos em moluscos no Pacific Northwest Research Institute, em Seattle (EUA), observou que esta é a primeira vez que um câncer transmissível foi descoberto se espalhando em água doce. As células geralmente sobrevivem só em fluidos salgados. Dragon também encontrou indícios de que bagres em outras partes do Nordeste americano podem ter sofrido do mesmo câncer. Algumas dessas pistas vieram dos diários do século 19 do naturalista Henry David Thoreau (1817-1862). O americano afirmava que frequentemente encontrava bagres cobertos de manchas nos rios do estado de Massachusetts. Por enquanto, há poucas pesquisas que indiquem que cânceres contagiosos estejam circulando entre pessoas. Mas é concebível que algum dia apareça um, segundo a especialista em cânceres transmissíveis Elizabeth Murchison, da Universidade de Cambridge. "Essa descoberta reforça a ideia de que cânceres transmissíveis podem surgir em qualquer lugar, inclusive em nossa própria espécie."