Ame o dificultador
28 Jul, 2026
Ame o dificultador Imagem gerada por IA Tem uma palavra que eu não usei na entrevista que dei para o Bett Blog há alguns dias. Não porque ela esteja errada. Pelo contrário: considero a palavra certa. Mas "certa" nem sempre é conveniente numa conversa com o mercado de Educação . A palavra é: dificultador. Disse, na entrevista, que o professor deve parar de ser um facilitador de acesso ao conhecimento para se tornar um "criador de atritos intelectuais" . É o tipo de formulação que soa bem num painel de congresso, que ninguém vai contra porque parece inteligente. Mas é um eufemismo. O que eu realmente quis dizer é que o professor precisa aprender a ser, de forma consciente e intencional, um dificultador . A educação que eu tive foi facilitadora. Com razão, aliás. O professor-facilitador foi uma reação necessária ao professor-repositório, aquele modelo bancário que Paulo Freire criticou com tanta precisão: o professor que deposita conhecimento, o aluno que saca na prova. A facilitação é necessária. Aproximar o conteúdo da realidade do aluno para que a compreensão e apreço pelo conhecimento seja efetivo. Jamais devemos perder isso de vista. Mas aí veio o ChatGPT . E de repente, o maior facilitador de qualquer matéria cabe no bolso de qualquer estudante de 14 anos. Está disponível 24 horas, fala mil idiomas, não tem mau humor e é capaz de criar metáforas visuais altamente personalizadas para explicar tudo de acordo com o gosto do freguês, ou melhor, do aluno. Se o professor continuar competindo neste terreno, o da facilitação de conteúdo, ele perde. Tem um nome que clareia esse argumento melhor do que qualquer teoria: Clóvis de Barros Filho. Já tive o prazer de conviver com ele em muitas ocasiões. Clóvis se define como um explicador. Ele explica. É o que ele faz, e faz muito bem. A IA também explica. Explica tudo, o tempo todo. Mas eu ainda prefiro ouvir o Clóvis explicar. E não é saudosismo, nem afeto pelo filósofo, embora eu tenha afeto. É porque o Clóvis é um explicador dificultador. Ele não simplifica para acabar com a questão. Ele explica de um jeito que complica o que você achava simples. Você entra com uma dúvida e sai com três. E as três são melhores do que a que você trouxe. Isso é ser dificultador. Algo que é e sempre será 100% humano.