Homem leva fibra óptica até comunidade indígena quase isolada no Ártico e cria internet mais rápida que Starlink
28 Aug, 2026
Em fevereiro de 2024, um jovem desapareceu sobre o gelo de James Bay, no extremo norte do Canadá. A temperatura caía, a escuridão avançava e, quando ele não voltou para casa, sua mãe procurou Elizabeth Kataquapit, então chefe da comunidade indígena de Fort Albany. Elizabeth publicou um alerta na internet. Voluntários da equipe local de busca e salvamento receberam a mensagem, subiram em motos de neve e partiram noite adentro. Antes do amanhecer, encontraram o rapaz já sofrendo com hipotermia, mas vivo. Aquela mobilização teria sido muito mais difícil alguns anos antes. A equipe dependia principalmente de rádios portáteis. Agora, uma mensagem conseguia alcançar diversos voluntários de uma vez graças a uma rede de fibra óptica que atravessara um dos lugares mais difíceis do Canadá para instalar infraestrutura. Por trás dela estava, entre outras pessoas, Brian Nakogee, responsável financeiro da Western James Bay Telecom Network (WJBTN). Ele não era o engenheiro que subiria nos postes, mas precisava resolver talvez o problema mais importante: conseguir dinheiro suficiente para provar que internet rápida também poderia chegar ali. Quase sem estradas Fort Albany fica a cerca de 975 quilômetros ao norte de Toronto. Para chegar a serviços e suprimentos disponíveis em Timmins, moradores precisam percorrer aproximadamente 500 quilômetros. Por terra, isso só é possível durante poucas semanas do inverno, quando o terreno congela e permite abrir uma estrada temporária. Apesar de a região já possuir uma espinha dorsal de fibra, os moradores não tinham acesso a uma rede veloz. Cerca de 6 mil pessoas compartilhavam uma capacidade de apenas 1 Gb/s e redes anunciadas com 10 Mb/s normalmente tinham apenas 3. Quando Nakogee entrou na WJBTN, em 2014, recebeu uma tarefa ambiciosa: viabilizar fibra para aproximadamente mil casas e empresas espalhadas por 300 quilômetros da costa de James Bay. A pequena organização não tinha uma grande equipe técnica nem capital para uma obra convencional. Nakogee passou anos reunindo apoio das comunidades e construindo um modelo que pudesse receber financiamento. Em 2015, ele e o engenheiro Dirk MacLeod começaram a desenhar uma versão financeiramente viável da rede. Engenharia no gelo O plano combinava duas mudanças. Primeiro, a capacidade da espinha dorsal seria ampliada com tecnologia óptica coerente, permitindo entregar até 100 Gb/s aos pontos de distribuição das comunidades. Depois, uma arquitetura GPON dividiria o sinal entre várias residências com menos equipamentos ativos espalhados pelo território. A logística exigiu levar equipamentos em aviões fretados e transportar enormes bobinas de fibra. Em 2019, a morte repentina de Dirk MacLeod interrompeu os trabalhos. Pouco depois, a pandemia fechou as comunidades a visitantes justamente quando os moradores mais precisavam de conexão. A solução foi formar gente dali. Moradores aprenderam a instalar e emendar fibras, às vezes atravessando vegetação e água até as coxas. Sem caminhão com plataforma em alguns momentos, trabalhadores precisaram subir nos postes para passar os cabos. Em abril de 2022, Fort Albany finalmente ligou sua rede residencial. O plano inicial oferecia 250 Mb/s de download e 30 Mb/s de upload, sem limite de dados. Até o fim daquele ano, a infraestrutura já alcançava todas as casas previstas nas comunidades atendidas pelo projeto. E a Starlink? Quando a Starlink começou a se espalhar pela região, surgiu uma pergunta inevitável: por que instalar cabos em uma casa se bastava colocar uma antena de internet via satélite? A resposta apareceu nos testes de latência. De Attawapiskat até Toronto, um pacote de dados pela rede da WJBTN levava cerca de 20 milissegundos, enquanto conexões por satélite comparáveis ficavam próximas de 60 ms. Depois, a fibra local reduziu esse tempo para aproximadamente 12 ms. Essa diferença é especialmente perceptível em chamadas de vídeo e aplicações interativas. Mais importante para Nakogee, porém, era outra vantagem: a infraestrutura pertence às próprias comunidades indígenas, assim como a receita gerada pelo serviço, em vez de depender integralmente de uma empresa distante.