Quem é e de onde veio Roberta Luchsinger, a amiga íntima de Lulinha
28 Aug, 2026
A socialite Roberta Luchsinger ganhou um certo destaque nacional quando convocou a imprensa para anunciar uma “boa ação”: ela estava disposta a doar R$ 500 mil, em dinheiro e joias, para o então ex-presidente Lula. Era agosto de 2017, e o petista estava com os bens bloqueados pela Operação Lava Jato. Roberta tirou de dentro de uma bolsa Hermès (francesa) um cheque ao portador no valor de 28 mil francos suíços. Em seguida, ela separou um Rolex (suíço), uma mala Rimowa (alemã), um vestido Dolce & Gabbana (italiano) e um anel de diamantes da grife brasileira Emar Batalha. Tudo para Lula penhorar ou leiloar. Segundo Roberta, sua riqueza vinha de uma mesada deixada pelo avô, Peter Paul Arnold Luchsinger, que ela apresentava como ex-acionista do banco suíço Credit Suisse. Ao entregar o cheque, a socialite ainda aproveitou para debochar da Lava Jato — operação que desenterrava contas secretas na Suíça de doleiros e políticos investigados por corrupção. "Agora já podem dizer que ele [o avô] tinha conta na Suíça. Aquela conta que os procuradores da Lava Jato tanto procuraram e não acharam", disse. Quase uma década depois daquela “performance” para os jornalistas, Roberta Luchsinger, hoje com 41 anos, voltaria ao noticiário. Mas o motivo não envolvia outra generosa doação. A pauta também não marcava o início de uma nova fase de sua vida. Afinal, ao longo dos anos, ela já havia assumido diferentes papéis: advogada, mulher de delegado, blogueira de emagrecimento, militante de causas sociais, candidata de esquerda e consultora de “saúde, tecnologia e produtos inovadores” em Brasília. A socialite, dessa vez, estava sendo investigada pela Operação Sem Desconto da Polícia Federal por suspeitas de tráfico de influência ligadas ao entorno de Lula. Mais especificamente, ao filho mais velho do presidente, Fábio Luís, o Lulinha. Caixão para indigentes Peter Paul Arnald não tinha conta nenhuma fora do Brasil. E na verdade se chamava Pedro Paulo Arnaldo. Ele administrou uma lavanderia no bairro carioca de Jacarepaguá até falir, nos anos 90, e passou os últimos anos de vida dependendo da segunda mulher para sobreviver em Marataízes, no Espírito Santo. Acabou morrendo em Miraí (MG), enterrado num caixão simples cedido pela prefeitura para indigentes. Foi em Miraí que o bisavô materno de Roberta, Afonso Alves Pereira, construiu uma fortuna com café, criou outros negócios de sucesso e chegou a “coronel”. Mas Roberta só desfrutou de uma pequena parte desse dinheiro. Miraiense, ela cresceu numa chácara e estudou em escola pública até se mudar para o Rio de Janeiro, aos 15 anos. Na capital carioca, manteve-se com uma mesada que só dava para pagar o colégio, a comida e outras despesas mais básicas. Roberta se formou em Direito, estagiou no Ministério Público e chegou a pensar em prestar concurso para promotora. Mas a disputa por outra fortuna mudaria seus planos. A queda do jatinho Em maio de 2009, um jatinho caiu em Trancoso (BA) e matou o banqueiro Roger Ian Wright, a segunda mulher dele e os dois filhos, Felipe e Verônica. Roberta Luchsinger e o pai, Roberto, viram na tragédia uma oportunidade de reivindicar um patrimônio estimado em US$ 900 milhões. Felipe e Verônica eram primos-irmãos de Roberta, filhos de sua tia Bárbara Luchsinger com Wright. E a estratégia consistia em fazer a herança chegar até Pedro Paulo Arnaldo. A tese apresentada à Justiça era inusitada: Felipe teria sobrevivido por alguns instantes ao pai na queda. Nesse caso, o patrimônio passaria primeiro para ele e, depois de sua morte, chegaria ao avô. O tribunal, no entanto, não comprou a ideia e reconheceu a chamada comoriência (morte simultânea), considerando que os dois morreram no mesmo acidente. Graças ao Tiririca Ainda em 2009, Roberta Luchsinger se casou com Protógenes Queiroz, delegado da Polícia Federal famoso por liderar a Operação Satiagraha contra o banqueiro Daniel Dantas. Na época, a imprensa ainda comprava a história de sua suposta riqueza e adorou o contraste: a herdeira de um banco ao lado do “caçador de banqueiros”. No ano seguinte, Protógenes foi eleito deputado federal pelo PCdoB de São Paulo. O mérito, porém, foi mais do palhaço Tiririca. Com mais de 1,3 milhão de votos, o humorista ajudou a eleger candidatos da mesma coligação, entre eles o delegado, que havia recebido 94,9 mil. Roberta e Protógenes tiveram uma filha e ficaram casados até o final de 2014. Nesse meio tempo, ela também se filiou ao PCdoB e voltou a ter algum espaço na imprensa com o blog Afine-se, em que dava dicas de dieta e exercícios depois de perder 35 quilos. Namoro com Zeca Dirceu Mas e a doação prometida a Lula? Não aconteceu. Ainda em 2017, a Justiça bloqueou os R$ 500 mil depois que a exposição do caso revelou a verdadeira situação financeira de Roberta Luchsinger. Ela devia R$ 232 mil em condomínio e outros R$ 62 mil a uma loja de decoração. Mesmo assim, a socialite mergulhou de vez na política. Em 2018, dias antes da prisão de Lula, Roberta se filiou ao PT (“de corpo e alma”) e se lançou candidata a deputada estadual. Seu apartamento em Higienópolis, na capital paulista, também ganhou uma nova função: virou ponto de encontro de caciques petistas como Guido Mantega, Arlindo Chinaglia e Rui Falcão. Na época, ela também foi apontada pela imprensa como namorada do deputado Zeca Dirceu, filho de José Dirceu. Roberta Luchsinger não foi eleita, porém continuou circulando no partido e se definindo como “rica, loura e de esquerda”. Bolsonaro virou um de seus principais alvos. A socialite dizia que “quem tem berço” não apoiava o ex-presidente, a quem classificava como “o pior lixo da política”. Na mesma linha, Roberta entrou na briga jurídica para tentar barrar as candidaturas de Sergio Moro, Rosangela Moro e Deltan Dallagnol nas eleições de 2022. Ela chegou a denunciar o casal Moro por suposta fraude no domicílio eleitoral e a pedir a inelegibilidade de Dallagnol. Tatuagens iguais Ninguém, nem a própria defesa de Roberta Luchsinger, consegue explicar quando exatamente ela conheceu Lulinha. Só se sabe que o vínculo mais forte é com a mulher dele, Renata (“minha melhor amiga”, “minha irmã”, como Roberta a chamou em suas redes sociais). Para se ter uma ideia da proximidade, as duas chegaram a fazer uma tatuagem idêntica no pulso. E foi por aí que ela entrou no círculo de confiança da família presidencial. A ponto de, numa disputa judicial com uma ex-empregada de Roberta, os advogados chamarem Lulinha de “marido” e “amigo” em diferentes trechos da petição. Como em outros aspectos da atuação dos dois junto ao governo, a natureza real dessa relação é nebulosa. Foi também por essa rede de relações que Roberta Luchsinger chegou a Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, ex-chefe de gabinete de Lula. Em depoimento à Polícia Federal, ele contou que foi Lulinha quem apresentou os dois. Em 2019, Roberta abriu a RL Consultoria e Intermediações. Mas foi só alguns anos depois, já no governo Lula 3, que a empresa passou a aparecer em negócios milionários e nas investigações sobre as relações da socialite em Brasília. Ela chegou a alugar uma mansão, ao custo de R$ 100 mil por mês, onde se reunia com Lulinha, empresários e políticos. E aí entra, de novo, a história da herdeira. A fama de mulher rica, além de abrir portas, servia de proteção e blindagem para a imagem que ela construiu. Tanto que, mesmo depois de a imprensa revelar a farsa, ainda em 2017, muitos jornalistas continuaram a chamá-la de “neta de um dos fundadores do Credit Suisse”. Roberta nunca precisou, de verdade, ser herdeira de banco nenhum. Bastava alguém acreditar que ela era. A reportagem da Gazeta do Povo entrou em contato com os advogados de Roberta Luchsinger para solicitar uma entrevista, mas não obteve retorno até a conclusão deste texto.