Porto do Açu entra na disputa pelos data centers da era da IA
3 Sep, 2026
No artigo de terça-feira (1o), falamos sobre o avanço da Inteligência Artificial no Brasil e sobre a necessidade de ampliar a infraestrutura de geração e distribuição de energia para atender à expansão dos data centers. O tema não poderia vir em melhor hora: a empresa inglesa Yamna acaba de anunciar a assinatura de um acordo de reserva no Porto do Açu, em São João da Barra, para desenvolver um campus de data centers de nova geração, voltado a operações de hiperescala e aplicações de Inteligência Artificial. O acordo garante inicialmente 20 hectares no complexo industrial, com direito preferencial de expansão para outros 20 hectares. A primeira fase do projeto prevê 250 MW de capacidade, com possibilidade de crescimento posterior. É um empreendimento que chama atenção, porque data centers voltados à IA são grandes consumidores de energia e precisam de fornecimento contínuo, estável e competitivo. E é justamente na área energética que o Porto do Açu apresenta um de seus principais diferenciais. O complexo já abriga duas usinas termelétricas da GNA, com cerca de 3 GW de capacidade instalada. Mas o potencial energético vai muito além: a GNA possui licenciamento para ampliar sua capacidade de geração para 6,4 GW. O complexo também conta com infraestrutura de transmissão em 500 kV, fundamental para transportar grandes volumes de energia, além de projetos de aproximadamente 2,4 GW em fontes solar e eólica. Essa combinação entre geração firme, fontes renováveis e infraestrutura de transmissão pode ser estratégica para os data centers. A Inteligência Artificial exige energia 24 horas por dia, sete dias por semana, e a confiabilidade do fornecimento é tão importante quanto seu preço. Ao mesmo tempo, a pressão por redução das emissões de carbono torna cada vez mais relevante o acesso a fontes renováveis. O movimento da Yamna ocorre em um mercado em forte expansão. O Brasil já é o maior mercado de data centers da América Latina, com cerca de 1 GW de capacidade instalada de TI. Essa estrutura poderá chegar a aproximadamente 3 GW até 2030, impulsionada pela Inteligência Artificial, pela computação em nuvem e pelas operações de hiperescala. Isso significa que a disputa pelos novos investimentos não será apenas por terrenos. Será também por energia, conectividade, água, fibra óptica, infraestrutura de transmissão, licenciamento ambiental e capacidade de expansão. A chegada da Yamna representa uma possível mudança na vocação econômica do Norte Fluminense. A região, que construiu sua economia contemporânea em torno do petróleo e do gás, começa a incorporar novas atividades relacionadas à transição energética e à economia digital. Porque a Inteligência Artificial está mudando os critérios de localização dos grandes empreendimentos tecnológicos. Se antes conectividade e proximidade dos mercados eram fatores decisivos, agora energia abundante, confiável e competitiva ganha um peso cada vez maior. Se o Brasil pretende realmente triplicar sua capacidade de data centers até 2030, precisará construir uma infraestrutura energética compatível com essa ambição. E o Porto do Açu já está fazendo parte dessa corrida. A questão, daqui para frente, é saber se o Rio de Janeiro conseguirá transformar suas vantagens energéticas, logísticas e territoriais em uma nova cadeia de valor baseada na economia digital. Na era da Inteligência Artificial, o novo ouro não está apenas nos dados, mas na energia capaz de processá-los.