O que a ascensão das universidades chinesas tem a nos ensinar
4 Sep, 2026
Em sua primeira edição, realizada em 2003, o ARWU (Academic Ranking of World Universities), dedicado a classificar as principais universidades do mundo, destacou a USP entre as 200 melhores instituições do mundo, mas não trouxe nenhuma universidade chinesa no topo. Pouco mais de duas décadas depois, a posição do Brasil no ranking segue bem parecida. Já na China, o cenário mudou completamente. Em 2003, a Universidade Tsinghua estava no grupo das 201-250 melhores universidades do mundo, de acordo com a classificação do ARWU, que também é conhecido como Ranking de Shanghai (a listagem foi feita inicialmente por uma equipe de acadêmicos da Shanghai Jiao Tong). A Universidade de Pequim figurava na sequência, no grupo das 251-300 melhores universidades globais. Ambas ficavam “atrás” da USP, que estava no grupo das 152-200 melhores do mundo naquela época. Na última edição do ranking, publicada em setembro, no entanto, a China contava com três universidades no chamado primeiro quartil da listagem: Tsinghua (18o lugar no mundo), Pequim (23°) e Zhejiang (24°) — uma ascensão sem paralelos. A USP ainda é a única instituição brasileira entre as 200 melhores universidades do mundo: no último ARWU, figura no grupo das 101-150 melhores universidades globais. A posição da USP na classificação, vale destacar, impressiona. Apesar de ser uma das maiores e mais antigas universidades do Brasil, ela está entre as instituições mais jovens no topo da classificação mundial — e compete na produção científica em nível de igualdade. Para ter uma ideia, Harvard (EUA), a melhor universidade do mundo no ARWU desde a primeira edição da listagem, foi fundada em 1636. É claro que rankings universitários como esse — e como as muitas listagens globais que surgiram depois dele — trazem um retrato parcial e questionável da educação superior no mundo. No caso do ARWU, por exemplo, os indicadores principais são prêmios internacionais de alto prestígio, como o Nobel e a Medalha Fields (dedicada à pesquisa em matemática), volume e impacto de publicações científicas. Então, são bem classificadas as universidades que se destacam nesses quesitos. Ainda assim, o avanço das universidades da China nessas classificações tem algo a nos ensinar. O país tem feito um investimento maciço em ciência e tecnologia como política de Estado. A nova potência científica elevou seus gastos em pesquisa de menos de 1% do PIB em 2000 para quase 3% do PIB atualmente. Enquanto a participação da ciência no PIB do país cresceu, o próprio PIB chinês também aumentou no período. Enquanto o Brasil segue praticamente estável no ranking ARWU desde 2013, a China multiplicou o investimento em ciência e hoje lidera a produção científica mundial O resultado aparece nos números. Desde 2020, a China ultrapassou os Estados Unidos e lidera a produção científica mundial em termos de quantidade de artigos científicos. Em 2025, cientistas ligados a universidades, instituições de pesquisa, hospitais e empresas da China publicaram aproximadamente 1,4 milhão de artigos científicos, de acordo com dados da base internacional SCImago. Isso é quase o dobro da produção científica total dos Estados Unidos no mesmo ano. Mais do que isso, as universidades chinesas foram incentivadas a competir internacionalmente, a publicar em periódicos científicos de alto impacto e a atrair cérebros do exterior — políticas que demandam recursos. Hoje, em conversas com pós-graduandos nos corredores das universidades brasileiras sobre intercâmbios de pesquisa no exterior, as instituições da China costumam se destacar entre os destinos universitários mais desejados. Como nos ensina a experiência chinesa, um salto quantitativo na produção científica demanda recursos contínuos em pesquisa e desenvolvimento. E deixa claro que o país se desenvolve quando a produção de conhecimento cresce. Republicar