Nanni Moretti exibe no Festival de Veneza filme solar estrelado por Louis Garrel

admin
5 Sep, 2026
Em 1989, o italiano Nanni Moretti dirigiu "Palombella Rossa", filme em que expunha a crise da esquerda italiana da época e seu próprio dissabor com a militância socialista. O Festival de Veneza daquele ano, para sua surpresa, relegou ao longa exibições fora da competição. Indignado com o que parecia pressão de uma intelectualidade esquerdista que não queria ver no cinema suas mazelas, Moretti decidiu nunca mais participar do festival. Mas na tarde deste sábado, o italiano rompeu com sua promessa, e 37 após o imbróglio pôs os pés no Lido para apresentar seu novo trabalho – desta vez, como queria: na condição de concorrente ao Leão de Ouro. Mas "Succederà Questa Notte" tem um contexto bastante distinto de seu filme de 1989, sem foco em política e com a câmera voltada para questões sentimentais. Mais especificamente as complicações que o amor pode trazer. O cineasta mais uma vez estrela o próprio filme, mas em uma participação mínima – quem interpreta seu alter ego, desta vez, é o francês Louis Garrel. Em cena, ele é Matteo, um rapaz que conhece uma mulher algumas horas após ela se casar – jogava tênis com um amigo quando, do nada, a moça surge na quadra do clube onde trocou alianças e pede para disputar um set contra ele. Em minutos, ela ganha não apenas a partida, mas também o coração de Matteo.O rapaz passa anos obcecado por ela, sem pistas de seu paradeiro, mas um dia o reencontro acontece. Tornam-se amantes, mas o sentimento que possuem um pelo outro logo suplanta a mera fisicalidade, e a vida pessoal de ambos começa a sofrer interferências desse romance. O filme é Moretti no seu estado mais puro e solar – é de uma leveza quase ímpar na carreira mais recente do cineasta. Há os toques morettianos de sempre: passeios de vespa, números musicais que interrompem a narrativa, o humor perdido entre a sofisticação e o nonsense. Mas há uma pulsão de vida e de busca por felicidade mais pronunciada, e a dupla que Garrel faz com Jasmine Trinca é um presente aos olhos e aos ânimos do espectador: Têm ótima sintonia em cena. Moretti tem 73 anos, mas sua alma parece a de um cineasta em começo de carreira. O outro longa da competição, "Primetime", do americano Lance Oppenheim, chegou ao Lido embalado pelo "star power" de seu protagonista, Robert Pattinson. Ele interpreta Chris Hansen, jornalista que foi apresentador de um programa que fez muito sucesso na TV americana, "To Catch a Predator", exibido em meados dos anos 2000. Mistura de jornalismo-denúncia e reality show, a atração tinha por base fisgar pela internet homens pedófilos, que pela web cortejavam menores de idade e marcavam encontros sexuais. Mas era um membro da equipe do programa quem se passava por adolescente para armar uma arapuca para cima desses internautas, e na hora do encontro verdadeiro, câmeras escondidas registravam o momento, com Chris entrando em cena para dar um flagra no pedófilo. Em seguida, policiais de plantão o levavam diretamente para a delegacia. Quanto mais sucesso o programa fazia, mais Hansen era tomado por um sentimento de onipotência. Sobretudo depois que foi parar no horário nobre, sendo concorrente direto do megassucesso "Lost". Mas a atração não se adapta bem ao horário, e Hansen precisa a qualquer custo fazer o programa deslanchar. Quando descobre que uma figura importante do judiciário texano está flertando com o membro de sua equipe disfarçado de adolescente, acredita que o escândalo poderá alavancar sua audiência. Nem tudo sai como ele esperava, porém. Pattinson tem uma atuação esforçada, que em geral funciona, mas o filme de Oppenheim é errático, afobado. Faz uso de uma estética exagerada, propositalmente de mau gosto, com cores estouradas e intensas, na esperança de sublinhar pelo estilo a sua crítica ao sensacionalismo barato da atração que ele retrata. Mas o filme, em essência, não é tão diferente assim do programa vil que ele quer depreciar: também ele busca adesão do espectador a qualquer preço. "Primetime" vale, sobretudo, pelas atuações de Merritt Wever, como a produtora de fala mansa do programa, e Skyler Gisondo, como o ator que se passa por adolescente. De resto, não é muito mais que poluição visual. Fora da competição, Veneza conferiu "Oasis: Don’t Look Back in Anger", aguardado documentário de Dylan Southern e Will Lovelace sobre a reunião do grupo dos briguentos Liam e Noel Gallagher, que saiu em turnê no ano passado, após 16 anos de rompimento. O filme mostra bastidores dos concertos, trechos dos shows e depoimentos de fãs – a estreia no Brasil é no próximo dia 10. Os irmãos eram aguardados para uma conversa com a imprensa, e chegaram a fazer a alegria dos fãs ao posar para fotos na ilha do Lido. Mas depois dos cliques, sem mais nem menos, deram meia volta e foram embora, deixando os jornalistas a ver navios. Em se tratando dos Gallagher, ninguém ficou muito surpreso, é bem verdade. Mas muitos se perguntam se a imagem de "paz e amor" que eles mostram no filme é verdadeira, ou se a dupla, mais uma vez, voltou a se desentender.