Denise Duarte: Os riscos do calor extremo são um reflexo das nossas desigualdades sociais

admin
9 Sep, 2026
Professora da FAU-USP estuda o clima urbano, coordena projetos da FAPESP sobre a adaptação climática e elabora o relatório do IPCC sobre cidades A cidade de São Paulo passou a contar no ano passado com um mapa deta­lhado da vulnerabilidade da popula­ção ao calor extremo, que combina condições ambientais e aspectos socioeconômicos para identificar as áreas de maior risco. O mapa foi produzido por Denise Duarte, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU), da Universidade de São Paulo (USP), com a pesquisadora Luiza Muñoz, que desenvolveu o trabalho em seu doutorado na FAU-USP, e o profes­sor Rohinton Emmanuel, da Uni­versidade de Glasgow, na Escócia. Os principais resultados foram publica­dos em setembro de 2025 na revista Urban Climate . Os pesquisadores cruzaram ima­gens de satélite e indicadores ambien­tais com características socioeconô­micas, como renda, idade e condições de moradia. Dados do Censo 2022 per­mitiram analisar cada um dos 27.592 setores censitários em que o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divide São Paulo. A conclusão é de que a vulnera­bilidade ao calor extremo é mais alta em áreas periféricas da capital, com maior densidade populacional e moradores de menor renda. “Essa é a população mais afetada, aquela que pode morrer por causa do calor”, afirma Duarte. Nesta entrevista, ela discute estra­tégias para reduzir os riscos das ondas de calor e defende que evidências como as reunidas no mapa orientem as prioridades das políticas de adap­tação às mudanças climáticas. A pesquisadora coordena proje­tos financiados pela FAPESP sobre resiliência e adaptação das cida­des, com foco em soluções baseadas na natureza, e integra como autora principal a elaboração do Relatório Especial sobre Mudança do Clima e Cidades (SRCities), do Sétimo Rela­tório de Avaliação (AR7), do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC). Como o mapa que vocês criaram se diferencia de outros levantamen­tos similares? Ao cruzar os dados ambientais com as informações socioeconômi­cas em cada um dos setores censitá­rios da cidade de São Paulo, consegui­mos um refinamento maior. Outros levantamentos são mais genéricos, por grandes regiões, por exemplo. Com os dados do Censo, é possível chegar a uma escala mais detalhada para fazer simulações sobre efeitos das mudanças climáticas e das políti­cas adotadas para enfrentá-las. Como trabalhamos com dados abertos, o mapa pode ser atualizado a qualquer momento, se surgirem informações novas, ou quando hou­ver um novo Censo. Nossa metodolo­gia também está disponível, e outras cidades podem reproduzi-la para criar seus próprios mapas de risco. O que o mapa de São Paulo revela? Constatamos que os riscos são um reflexo das nossas desigualdades. Pes­soas que vivem em áreas periféri­cas, de maior densidade populacio­nal, como as favelas, estão expostas a riscos maiores do que os que afe­tam moradores de outras regiões da cidade. Isso reflete não só as condi­ções de moradia, mas também outros aspectos econômicos, como a renda das pessoas. Em países europeus, onde as desi­gualdades são menores, a idade é o fator que mais influi na vulnerabili­dade das pessoas. Em São Paulo, não, porque a maioria dos idosos vive em bairros mais centrais, em condições mais favoráveis para se adaptar aos riscos criados por ondas de calor. Nas favelas, onde o risco é maior, a popula­ção é mais jovem e há muitas crianças. A proximidade de parques e áreas verdes ajuda a reduzir os riscos, mas nosso mapa mostra que nem sempre isso ocorre quando consideramos outros fatores. Na periferia, mui­tas pessoas vivem a quilômetros de distância do parque mais próximo. Muitos parques têm poucas árvores e pouca sombra, além de infraestrutura deficiente para receber a população. Alexssandro Josias /Shutterstock Região do Jardim Colombo, comunidade da Zona Sul de São Paulo vizinha a Paraisópolis, da qual é separada pela avenida Giovanni Gronchi. O adensamento populacional e a escassez de vegetação aumentam o desafio de adaptar essas e outras áreas às temperaturas mais altas Alexssandro Josias /Shutterstock De que forma o poder público tem respondido a essas evidências? O mapa pode ajudar a definir prio­ridades, e já expusemos nosso trabalho a integrantes da administração muni­cipal algumas vezes. Em 2023, quando tivemos ondas de calor muito fortes, a prefeitura começou a executar planos de emergência, com a Operação Altas Temperaturas, oferecendo água, fru­tas e sombra em tendas erguidas em alguns pontos da cidade. Essas ações nos parecem insuficientes. Com os dados do mapa, podemos ter ações estruturantes para adap­tação ao calor extremo. Poderíamos criar verdadeiros oásis urbanos ao longo dos eixos de mobilidade, apro­veitando a estrutura de terminais de ônibus e metrô, escolas e centros esportivos como pontos de apoio para ampliar o alcance desse tipo de ação emergencial. Os moradores da periferia pas­sam horas por dia se deslocando no trânsito. Muitos trabalham expostos ao calor, nas ruas, sem abrigo. É um formigueiro humano sujeito aos ris­cos permanentemente. Uma estraté­gia como essa poderia multiplicar os pontos de acolhimento nos períodos de calor mais intenso. O que mais poderia ser feito? Temos de buscar uma estratégia compatível com nossa realidade. Na Europa, estão usando bibliotecas, centros comunitários e outros pré­dios com ar-condicionado para criar uma rede de refúgios urbanos. Nós não temos tantas bibliotecas como eles, mas temos muitas escolas e cen­tros esportivos que poderiam ser usa­dos como abrigos durante uma onda de calor extremo. A saída para a adaptação às mudan­ças no clima não pode depender ape­nas de aparelhos de ar-condicionado. Precisamos aproveitar estruturas já existentes e transformá-las em postos onde as pessoas possam se refrescar, se hidratar e receber atendimento se passarem mal. A Prefeitura diz que áreas verdes cobrem metade de São Paulo, mas a conta inclui terrenos baldios e cam­pos de golfe, inacessíveis à popula­ção. A maioria não tem vegetação ade­quada nem estrutura para receber a população. Nosso mapa mostra isso com clareza, e como o plantio de árvo­res também é desigual. O uso de aparelhos de ar condi­cionado tem crescido em ônibus, trens e edifícios comerciais e resi­denciais. Por que não é suficiente? Eles obviamente são essenciais em alguns lugares, como hospitais e esco­las. Mas não dá para simplesmente “ar-condicionar” uma cidade como São Paulo. Imagine o impacto disso no consumo de energia. O ar-condi­cionado pode ser parte da solução, mas há muito a fazer com condicio­namento passivo, vegetação e outras soluções baseadas na natureza. Nem todos os ônibus têm ar-condi­cionado, e mesmo os que têm nem sem­pre estão com a manutenção em dia. A superlotação em longos trajetos e a precariedade dos pontos de ônibus também aumentam a exposição das pessoas durante uma onda de calor. Ainda temos em São Paulo pontos de ônibus cobertos com vidros, sem sombra, o que é um absurdo. Alguns edifícios de escritórios pre­cisam ser evacuados se o ar-condicio­nado não funcionar, ou se houver um apagão. Eles não têm um plano B de operação, porque a fachada é inteira de vidro e as janelas são seladas. São como caixas de vidro fechadas, que absor­vem a radiação solar e aprisionam o calor dentro. Não dá para imaginar que essa seja a única saída. Plano Comunitário de Redução de Riscos e Adaptação Climática do Jardim Colombo (PCRA) Uma ferramenta construída coletivamente para fortalecer o enfrentamento da crise climática e reduzir os riscos junto à comunidade. O plano faz parte de um conjunto de 12 projetos que contribuíram para o desenho de uma política pública inovadora, formulada pelo Departamento de Mitigação e Prevenção de Risco da Secretaria Nacional de Periferias (SNP), do Ministério das Cidades. Faltam pesquisas sobre o impacto das mudanças climáticas na pe­riferia? Participei de um grupo de pesqui­sadores que desenvolveu um plano de adaptação para o Jardim Colombo, no complexo de Paraisópolis. Fizemos primeiro uma revisão da literatura e depois um levantamento de riscos, pro­blemas e soluções, a partir de entrevis­tas e encontros com pessoas da comu­nidade, e depois apresentamos o plano à prefeitura. O projeto teve apoio dos ministérios das Cidades e da Saúde. Uma das coisas que verificamos é que, para assentamentos informais como esse, há muitos estudos sobre chuvas, enchentes e deslizamen­tos, mas muito pouco sobre o calor. Entre os moradores, os riscos asso­ciados ao calor extremo parecem ser menos percebidos do que os causa­dos pelas chuvas. Eles têm consciên­cia da falta de ventilação da casa nos dias mais quentes, mas enchentes e deslizamentos são ameaças mais evi­dentes para eles. Talvez isso mude com a repercussão de eventos como a onda de calor que atingiu os euro­peus neste ano. Em São Paulo, há uma iniciativa notável da Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente, o pro­grama Sampa Adapta, em coope­ração técnica com o programa de pós-graduação em meteorologia do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG), da USP. A secretaria conseguiu recursos da Vital Strategies, organização inter­nacional que apoia políticas na área de saúde, e adquiriu 25 sensores de temperatura e umidade, que insta­lamos em cinco bairros da cidade. Moradores das próprias comunida­des receberam alguns dos instru­mentos e ficaram responsáveis por cuidar deles após a instalação. Com os sensores, teremos medições locais de temperatura e umidade em áreas vulneráveis. Existem dados suficientes para construir mapas de risco em ou­tras cidades brasileiras? Em São Paulo, temos uma vanta­gem, que é o GeoSampa, plataforma que reúne grande quantidade de dados georreferenciados. É graças a ela que podemos fazer cruzamentos como os que permitiram construir o mapa de riscos. Outras capitais, como Rio de Janeiro e Belo Horizonte, tam­bém têm mapas digitais, mas não dis­põem da mesma quantidade de dados em uma única plataforma. Os moradores da periferia passam horas no trânsito. Muitos trabalham expostos ao calor nas ruas. É um formigueiro humano exposto aos riscos permanentemente Há exemplos de políticas de adap­tação climática eficazes em outras capitais brasileiras? O Rio de Janeiro adotou normas para lidar com situações de calor extremo. Na esteira do que ocor­reu durante o show de Taylor Swift, em 2023, quando uma garota pas­sou mal e faleceu em decorrência do calor excessivo, foi aprovada a lei estadual 10.557/24, que obriga pro­motores de eventos a fornecer água gratuitamente aos espectadores. E a prefeitura adotou um protocolo a ser seguido se a temperatura ultra­passar certos limites, com um sistema de alertas, fornecimento de água e outras medidas. Há restrições para eventos e atividades ao ar livre se tem­peraturas acima de 40 °C forem regis­tradas por três dias seguidos. Sua formação passou pela enge­nharia, pela música e pela arqui­tetura. Como esse percurso a le­vou ao estudo do clima urbano? Sou mato-grossense, de Cuiabá. Não havia curso de arquitetura no estado quando entrei na faculdade, então fiz engenharia civil e, assim que terminei, fui para a Escola de Engenharia de São Carlos, da USP, que tinha um departa­mento de arquitetura. Também cur­sei música, por influência da minha mãe, que é pianista. Eu tocava piano, mas parei há décadas. A Prefeitura diz que áreas verdes cobrem metade de São Paulo, mas a conta inclui terrenos baldios e campos de golfe inacessíveis à população Durante o mestrado em São Carlos (SP), fiz as disciplinas de arquitetura que não tive na graduação e estudei conforto ambiental em edifícios cons­truídos em Cuiabá. No doutorado, na FAU-USP, examinei como diferentes formas de ocupação do solo afetam os microclimas urbanos. Como é um tema interdisciplinar, fiquei mais pró­xima na USP de outras áreas impor­tantes para estudá-lo, como a meteo­rologia e a geografia. 27.592 setores censitários de São Paulo para construir o mapa de risco ao calor extremo Segundo protocolo da prefeitura 40 °C por 3 dias seguidos é o limite que aciona restrições a eventos ao ar livre no Rio de Janeiro Por que escolheu a questão climá­tica como foco de pesquisa? Em 2010, fui convidada a par­ticipar de um Projeto Temático da FAPESP, multidisciplinar, sobre o impacto das mudanças climáticas. Meu grupo, coordenado por Tercio Ambrizzi, do IAG, analisou o conforto térmico dos idosos e sugeriu mudan­ças arquitetônicas que os ajudassem a enfrentar o calor. Quando comecei a estudar os relatórios do IPCC, per­cebi a gravidade do problema. Decidi que trabalharia para essa causa no resto da minha carreira acadêmica. Eu me dei conta de que a arquitetura e o urbanismo tinham uma contribuição importante a dar e passei a direcionar meus projetos sobre microclimas urbanos, vegeta­ção e adensamento para esse campo interdisciplinar. Os cursos de arquitetura têm in­corporado esse esforço interdis­ciplinar? Na pós-graduação da FAU-USP, atuo na área de tecnologia da arquite­tura. Temos três disciplinas voltadas para as questões climáticas. A mais antiga trata de conforto ambiental em ruas, calçadas e outros espaços aber­tos e foi reformulada com o tempo. Criei mais duas, com meu colega Leo­nardo Monteiro. Uma amplia a escala para olhar as cidades como um todo. Na outra, estudamos o impacto nos edifícios — não só da crise climática, mas também da crise energética e da pandemia de Covid-19. Essas disciplinas têm atraído alunos de outras formações. Temos uma interação bastante forte com pes­quisadores das ciências biológicas, da saúde pública, da engenharia e da meteorologia. Não tem sentido restringir o estudo desses temas aos aspectos arquitetônicos e urbanís­ticos, sem parcerias com as outras áreas. Temos levado isso à gradua­ção também. As novas construções estão sendo projetadas para enfrentar um ce­nário de temperaturas mais ele­vadas? Sabe os folhetos que distribuem nas ruas quando lançam novos imó­veis? São todos iguais, basicamente a mesma planta, porque os códigos municipais não regulam nada, e o mercado imobiliário dita as regras. Não há preocupação com questões tér­micas e adaptação. Estamos incenti­vando a construção de caixas de vidro, com varandas falsas, áreas reserva­das para condensadoras de ar-condi­cionado e janelas fechadas. Nunca vi plantas tão ruins como agora.