Toyota retoma produção de motores um ano após fábrica ser destruída

admin
24 Sep, 2026
Há exatamente um ano, a Toyota praticamente perdeu sua fábrica de motores de Porto Feliz (SP). Um evento climático de grande intensidade destruiu a cobertura e comprometeu a estrutura da unidade, obrigando a fabricante a interromper uma operação essencial para seus carros produzidos no Brasil. Nesta semana, a empresa começou a escrever uma nova etapa dessa história: a fábrica voltou parcialmente a produzir motores. A retomada começa pela fundição, primeira parte da reconstrução de Porto Feliz concluída pela Toyota. Cerca de 150 funcionários retornam à unidade e a capacidade inicial será de aproximadamente 400 motores por dia. Usinagem e montagem, entretanto, permanecem em uma instalação provisória preparada pela fabricante depois do desastre. A operação completa da fábrica reconstruída está prevista somente para 2028. Foto aérea da reconstrução da fábrica da Toyota tirada dia 08 de setembro de 2026 Foto de: Toyota É uma recuperação que os números oficiais não conseguem explicar sozinhos. Em uma visita realizada pelo Motor1.com à estrutura temporária, a Toyota abriu pela primeira vez para pessoas de fora da empresa uma sala criada para acompanhar a reconstrução. Mapas, cronogramas, layouts e registros das decisões tomadas desde o dia do incidente ajudam a dimensionar uma operação que envolveu retirar centenas de máquinas de uma fábrica sem cobertura, reorganizar a produção mundial de motores e componentes e montar praticamente uma nova linha industrial em poucos meses. Três minutos que fizeram diferença Gilberto Paulino, diretor industrial da Toyota do Brasil, relembrou em detalhes o que aconteceu naquele dia. Segundo o executivo, a chuva forte começou às 13h28. Pouco antes do evento que destruiu parte da fábrica, houve uma queda de energia. O protocolo da Toyota determina que, nessas situações, os trabalhadores deixem seus postos e se concentrem em uma área previamente estabelecida. Três minutos depois, a estrutura foi atingida. Acidente na fábrica da Toyota: telhado destruído Acidente na fábrica da Toyota: área de montagem de motores Acidente: coluna de concreto quebrada Acidente: Área de descanso dos Team Members Fotos de: Toyota Acidente na fábrica da Toyota: Processo de limpeza de máquinas Fotos de: Toyota O detalhe é particularmente importante porque a área de montagem, onde normalmente se concentra um grande número de funcionários, foi uma das atingidas. Duas semanas antes, a fábrica havia realizado um treinamento de evacuação. Às 13h50, segundo Paulino, a companhia já havia conseguido confirmar que todos estavam em segurança. Houve apenas ferimentos leves e nenhuma morte. Depois de garantir a segurança dos funcionários, o problema mudou rapidamente de dimensão. Porto Feliz não era simplesmente mais uma fábrica dentro da operação brasileira. Era dali que saíam motores necessários para manter as linhas de veículos funcionando e, naquele momento, a Toyota estava a poucas semanas de um dos lançamentos mais importantes de sua operação brasileira: o Yaris Cross. O SUV utiliza no Brasil um motor 1.5 flex com injeção direta que, segundo Paulino, possui uma especificação exclusiva do mercado brasileiro. Sem Porto Feliz, a Toyota não tinha simplesmente outra fábrica no mundo da qual pudesse importar o mesmo conjunto pronto. 622 máquinas retiradas da fábrica No dia seguinte ao incidente, a Toyota criou um comitê de crise e dividiu a recuperação em diferentes frentes. Uma delas precisava descobrir quais motores e componentes poderiam ser fornecidos pelas operações internacionais. Outra trabalhava para reorganizar a produção de veículos no Brasil. Uma terceira cuidava da reconstrução, enquanto Recursos Humanos passou a tratar de férias emergenciais, layoff e apoio aos aproximadamente 800 trabalhadores de Porto Feliz. Acidente na fábrica da Toyota: área frontal Foto de: Toyota Havia ainda um problema físico bastante mais imediato: retirar as máquinas de dentro da fábrica danificada. Inicialmente, mais de 800 equipamentos foram avaliados para remoção. No processo de transferência para a instalação provisória, 622 máquinas acabaram sendo levadas para o novo endereço, segundo Paulino. Acidente na fábrica da Toyota: fundos Foto de: Toyota A primeira ideia era distribuir os equipamentos por instalações disponibilizadas por fornecedores. Havia espaços possíveis, mas isso significaria espalhar máquinas e trabalhadores por diferentes endereços. A orientação da direção da Toyota foi procurar uma alternativa capaz de manter a operação concentrada. Ela apareceu a apenas 11 km da fábrica de veículos de Sorocaba. Uma fábrica montada dentro de um galpão A Toyota encontrou dois galpões recém-inaugurados e praticamente vazios em um condomínio industrial. O primeiro teste foi quase elementar: pegar o layout da fábrica destruída e verificar se as linhas caberiam naquele espaço. Foto aérea externa da fábrica provisória da Toyota - DVR Foto de: Toyota Cabiam, porém, haviam uma série de outros problemas. Máquinas industriais daquele porte exigiam um piso capaz de suportar grandes cargas. Segundo Paulino, o local suportava seis toneladas por metro quadrado, suficiente para os equipamentos. Havia estacionamento, espaço para ônibus, escritórios e refeitório. O principal obstáculo era energia elétrica: como os prédios haviam acabado de ser construídos, a infraestrutura disponível estava dimensionada basicamente para iluminação, não para uma fábrica de motores. Uma subestação que normalmente levaria cerca de dez meses para ser instalada ficou pronta em aproximadamente três. Enquanto isso, geradores foram utilizados para permitir os testes dos equipamentos. A Toyota tomou a decisão de instalar a operação no local apenas três dias depois do desastre. A partir daí começou uma transferência que funcionava 24 horas por dia. Equipes trabalhavam em turnos retirando aproximadamente dez equipamentos diariamente de Porto Feliz, enquanto especialistas brasileiros e japoneses remontavam as linhas no novo endereço. O layout precisava ser constantemente ajustado conforme as máquinas chegavam e seu estado era conhecido. Segundo Paulino, um layout que normalmente levaria cerca de quatro meses para ser desenvolvido foi definido em quatro dias. Japão entrou na operação A rede mundial da Toyota teve papel decisivo. A fabricante reorganizou sua cadeia para que Japão e outras unidades asiáticas fornecessem motores e componentes enquanto a operação brasileira era reconstruída. Essa movimentação permitiu que a produção de veículos no Brasil fosse retomada aproximadamente 40 dias depois do incidente. No caso do motor 1.5 flex do Yaris Cross, a solução foi ainda mais complexa. Como a configuração brasileira não era produzida em outra fábrica, moldes foram enviados ao Japão para que componentes fundidos passassem a ser fabricados lá. Peças específicas fornecidas no Brasil também começaram a viajar no sentido contrário: eram embaladas na instalação provisória, enviadas ao Japão, incorporadas aos motores e posteriormente trazidas de volta ao país. Enquanto isso, a Toyota priorizou a reinstalação no Brasil das etapas de usinagem e montagem do 1.5. A fundição, muito mais complexa de transferir por causa do peso dos equipamentos e da demanda energética, permaneceu temporariamente no exterior. O motor 2.0 flex utilizado por Corolla e Corolla Cross seguiu outro caminho. Como existem outras operações da Toyota capazes de produzir essa família de motores, o Japão reorganizou sua capacidade e absorveu o volume brasileiro. Os equipamentos brasileiros do 2.0 foram retirados de Porto Feliz e permanecem armazenados na instalação provisória. Quatro meses depois, saiu o primeiro motor Em 26 de janeiro, pouco mais de quatro meses depois da destruição da fábrica, a linha provisória produziu seu primeiro motor 1.5. Era justamente o conjunto necessário para viabilizar o Yaris Cross nacional. Produção de motores Toyota (fábrica provisória) - DVR Foto de: Toyota A estrutura chegou depois ao mesmo ritmo previsto para Porto Feliz. De acordo com Paulino, a operação é capaz de produzir cerca de 400 motores por dia e alcança aproximadamente 42 mil unidades mensais. A instalação provisória continuará responsável por usinagem e montagem enquanto a reconstrução da fábrica original avança. Produção de motores Toyota (fábrica provisória) - DVR Foto de: Toyota A solução também permitiu preservar a cadeia brasileira de fornecedores. A Toyota afirma ter mantido os empregos durante todo o período de recuperação, enquanto parte dos trabalhadores foi deslocada para outras operações. Segundo Paulino, 197 funcionários de Porto Feliz foram transferidos para a nova fábrica de veículos de Sorocaba. Porto Feliz volta a produzir, mas ainda parcialmente Um ano depois do incidente, a primeira área reconstruída em Porto Feliz é justamente a fundição. A nova estrutura foi refeita no mesmo terreno, mas recebeu alterações importantes. Segundo a Toyota, o prédio anterior precisou ser demolido; a nova fábrica está sendo preparada não apenas para recuperar a capacidade perdida, mas também para atender ao crescimento futuro da operação brasileira. Foto aérea da reconstrução da fábrica da Toyota tirada dia 08 de setembro de 2026 Foto de: Toyota Paulino explicou que as novas estruturas metálicas são aproximadamente 45% mais reforçadas do que as anteriores, embora a construção destruída já atendesse às normas exigidas. A área também será maior, antecipando futuras necessidades de produção. Fundição de motores da Toyota em Porto Feliz Foto de: Toyota Nesta primeira etapa, Porto Feliz volta a fazer a fundição do motor 1.5. Os componentes produzidos ali seguem para a instalação provisória, onde continuam as etapas de usinagem e montagem. Aproximadamente 150 trabalhadores participam dessa retomada e a capacidade inicial é de cerca de 400 motores por dia. Fundição de motores da Toyota em Porto Feliz Foto de: Toyota A próxima grande etapa será o retorno do motor 2.0. Segundo Paulino, a Toyota trabalha para que a produção em massa desse conjunto volte a Porto Feliz em 2028. Até lá, o fornecimento feito pelo Japão permite que a fabricante mantenha as máquinas brasileiras armazenadas e evite uma nova interrupção para transferi-las antes que a fábrica definitiva esteja pronta. O retorno integral do 1.5 ainda exige uma engenharia diferente. Como a linha provisória abastece diretamente a produção do Yaris Cross, desmontá-la significa interromper o fornecimento. A Toyota estuda produzir estoques adicionais e fazer a transferência de maneira gradual para reduzir o impacto sobre Sorocaba. Fundição de motores da Toyota em Porto Feliz Foto de: Toyota Quando todo o processo estiver concluído, Porto Feliz deverá novamente reunir fundição, usinagem e montagem. A Toyota diz que a unidade reconstruída terá capacidade para ampliar a produção de motores híbridos flex e estará entre suas fábricas de maior padrão global de eficiência. O projeto integra o ciclo de R$ 11,5 bilhões em investimentos no Brasil até 2030. A retomada desta semana, portanto, não significa que Porto Feliz esteja novamente funcionando como antes. A fábrica voltou a produzir, mas apenas uma parte do motor é feita ali neste momento. A diferença é que, um ano depois de perder uma unidade inteira, a Toyota já tem novamente a fundição em Porto Feliz, uma linha provisória operando no mesmo ritmo planejado antes do desastre e um cronograma para reunir tudo outra vez em 2028. Produção de motores Toyota (fábrica provisória) - DVR Foto de: Toyota O que mais chamou a atenção em todo essa descrição dos fatos foi a dimensão do problema e as rápidas tomadas de decisões a seguir. Onde havia galpões vazios, hoje há centenas de máquinas, linhas de usinagem e montagem e motores saindo diariamente para Sorocaba. Era uma solução que deveria simplesmente manter a Toyota funcionando enquanto Porto Feliz era reconstruída. Acabou se tornando uma fábrica de motores montada praticamente do zero em quatro meses. Mais sobre a Toyota Antes da nova geração, Toyota Hilux vira papamóvel de Leão XIV Nova Toyota Hilux 2027 começa a chegar às lojas em dezembro Novo GR Corolla chega ao Brasil mais forte e só com câmbio manual Flagra: inédita Toyota Hilux elétrica aparece em testes no Brasil