Frase de Oscar Wilde: “Estamos todos na sarjeta, mas alguns de nós olham para as estrelas” – o que o autor escreveu logo depois derruba a leitura motivacional
18 Oct, 2026
A frase de Oscar Wilde diz assim: “Estamos todos na sarjeta, mas alguns de nós olham para as estrelas.” Isolada, ela funciona como um conselho sobre manter a esperança em tempos difíceis. No texto de onde ela saiu, a função é outra. Onde a frase aparece Ela está no terceiro ato de O Leque de Lady Windermere, peça de Oscar Wilde encenada pela primeira vez em 1892. Quem a diz é Lord Darlington. A cena se passa na sala dele, entre homens bebendo e conversando com ironia sobre moralidade, casamento e comportamento social. Não é um momento de consolo nem de superação. O diálogo que quase ninguém cita A frase não abre o assunto. Ela responde a outra. Pouco antes, Dumby diz: “Não acho que sejamos maus. Acho que somos todos bons, exceto Tuppy.” É então que Darlington rebate: “Não, estamos todos na sarjeta, mas alguns de nós olham para as estrelas.” A reação chega imediatamente. Dumby repete a frase e provoca: “Palavra, você está muito romântico esta noite, Darlington.” Cecil Graham emenda: “Romântico demais! Você deve estar apaixonado. Quem é a moça?” Ou seja, a fala é debochada na própria cena. Os amigos não a tratam como sabedoria, e sim como sintoma de alguém que está apaixonado e falando bonito demais. Quem é quem diz a frase O detalhe que fecha a leitura é o personagem. Lord Darlington não é o conselheiro da peça. É o homem que passa a trama tentando convencer Lady Windermere a abandonar o marido e fugir com ele. Wilde entrega a linha mais lírica do texto justamente a quem tem interesse em parecer sincero. E os outros personagens percebem na hora. O que a frase continua dizendo Nada disso anula a imagem, e é por isso que ela sobreviveu 130 anos. A sarjeta e as estrelas sustentam duas realidades ao mesmo tempo: a condição concreta e a capacidade de olhar além dela. A diferença está no que se faz com isso. Lida como máxima de autoajuda, a frase vira promessa de que basta mudar o olhar. Lida no contexto, ela é mais interessante: Wilde mostra alguém formulando uma ideia bonita por um motivo nada nobre, e ainda assim a ideia funciona. Reconhecer a dificuldade e continuar desejando mudança são coisas que podem coexistir. O que a peça acrescenta é que ninguém precisa ser admirável para ter esse tipo de pensamento. A frase não substitui ajuda Esperança, no sentido que a psicologia costuma usar, envolve identificar objetivos e caminhos possíveis para alcançá-los, e não apenas esperar que as coisas melhorem. É diferente do otimismo, que é a expectativa de um resultado favorável. Também não substitui recurso material, rede de apoio ou acompanhamento profissional. Quando a tristeza se prolonga e passa a ocupar os dias, conversar com um profissional de saúde é o caminho. O Centro de Valorização da Vida atende gratuitamente pelo telefone 188, 24 horas por dia. Uma curiosidade sobre Wilde Anos depois de escrever a peça, Wilde foi condenado e preso. No cárcere, produziu o longo texto que viria a ser conhecido como De Profundis, em que revisita escolhas, perdas e sofrimento pessoal. É o lado menos irônico de um autor conhecido pelo humor. O escritor também já falou sobre amor: Oscar Wilde disse: “Um homem pode viver feliz com qualquer mulher desde que não a ame” – reflexão do autor sobre amor.