Da genômica à linguística, a África transfigurada

admin
22 Oct, 2026
Muitos povos da África ao sul do Saara não registravam sua história por meio da escrita antes do contato com os europeus, mas isso não significa que seja impossível reconstruir esse passado. Transformações no som e no sentido das palavras em idiomas que descendem da mesma língua-mãe, por exemplo, podem funcionar como um roteiro dessa história, conectando as transformações linguísticas a mudanças na cultura, na organização social e até nas condições ambientais enfrentadas por tais grupos. Pistas fundamentais sobre o passado e o presente desses povos também podem vir do DNA – tanto o das populações que ainda ocupam o continente africano quanto o dos descendentes delas no Brasil. Linguística histórica e genômica, ao lado de trabalhos pioneiros sobre a história da produção do conhecimento científico pelos próprios africanos, fazem parte de uma série de abordagens por meio das quais pesquisadores brasileiros estão traçando um quadro mais complexo e aprofundado da África. Em 2008, a Lei nº 11.645 ampliou a obrigatoriedade de ensino nas escolas para a história e a cultura indígenas, incluindo no currículo a luta dos povos originários no Brasil e sua contribuição para a formação da sociedade nacional A ampliação das pesquisas sobre o continente no contexto brasileiro é indissociável da promulgação da Lei nº 10.639, em 2003, que alterou a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) para tornar obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira nas escolas de ensino fundamental e médio. Segundo Marina de Mello e Souza, professora de história da África da Universidade de São Paulo (USP), a lei é uma conquista do movimento negro. “Especialmente a partir do período de redemocratização, intelectuais e ativistas passaram a defender o ensino dessa temática como um caminho para a superação do racismo”, diz ela. Uma dessas pessoas foi Nilma Lino Gomes, professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) que desempenhou um papel de articulação entre a produção acadêmica e as demandas do movimento negro. Em 2012, em artigo na revista Currículo sem Fronteiras, ela afirmou: “A aprovação da lei aponta para um passo importante na construção de uma ruptura epistemológica e cultural, para uma (re) construção histórica alternativa e emancipatória”. A mudança se desdobra na formação docente, na produção de material didático e na pesquisa acadêmica. Uma análise do número de dissertações e teses no portal da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) mostra um crescimento linear e constante na primeira década após a promulgação da lei. Em 2003, registram-se 68 trabalhos. O número mais do que dobra em cinco anos, chegando a 162 em 2008, e, a partir de 2019, passa de 400 em diversos casos. O crescimento nos projetos de pesquisa sobre a África financiados pela FAPESP foi mais lento, mas o volume de concessões em 2026 é três vezes maior do que o de pesquisas iniciadas em 2003. A lei também fomentou a formação de professores e de pesquisadores. Inicialmente, as investigações concentravam-se na África de colonização portuguesa, englobando nações como Angola, Moçambique e Cabo Verde. O foco temporal era majoritariamente o chamado período Atlântico (a fase inicial de contato com os europeus), motivado pelo interesse em compreender o comércio de escravizados e as conexões históricas com o Brasil. Intelligentsia É o conjunto dos intelectuais de uma sociedade, considerados uma elite ou vanguarda cultural, social ou política. “Contudo, nos últimos dez anos, o escopo das pesquisas se expandiu. Há pesquisadores brasileiros que analisam uma ampla diversidade de temas contemporâneos, incluindo o islamismo nos séculos 19 e 20, as guerras de independência, o apartheid na África do Sul e o genocídio de Ruanda”, afirma Souza. “É impossível pensar um país do porte do Brasil, com os vínculos que temos com a África, sem uma intelligentsia capaz de pensar esse continente tão complexo, que demanda pesquisas a partir de seus próprios termos”, argumenta Marcos Leitão de Almeida, historiador da USP. Para ele, as pesquisas comportam dimensões múltiplas, desde a pedagógica, passando pela política e pela geopolítica do conhecimento. “Esses estudos colaboram para abandonar a maneira simplista com que intelectuais e políticos se engajam com o passado africano”, diz ele. Na ponta das línguas Especialista na região do Baixo Congo, Almeida tem utilizado a linguística histórica para reconstruir parte importante da história da África. “A linguística histórica oferece, por exemplo, uma visão única sobre as conceituações êmicas do que significava estar com fome na África antiga”, explica. Utilizado principalmente em antropologia, ciências sociais e linguística, o termo “êmico” serve para descrever pontos de vista, valores e comportamentos sob a perspectiva interna de um grupo ou de uma cultura. “Na prática, é como montar um grande quebra-cabeça cujas peças são listas de palavras, que comparamos com registros arqueológicos e dados paleoclimatológicos. O resultado desse esforço é uma árvore linguística, que ajuda a compreender os significados das palavras ao longo do tempo, de maneira a construir uma narrativa sobre o continente africano pré-colonial”, explica o pesquisador. Almeida tem analisado como os povos falantes de línguas da família linguística bantu (uma das mais importantes do continente, correspondente a cerca de 600 idiomas e falada por mais ou menos um terço dos africanos) conceberam e enfrentaram crises decorrentes da chamada anomalia climática medieval (ACM). A sigla é usada para designar um intervalo de tempo no qual ocorre um aquecimento do planeta, abrangendo os séculos centrais do que a historiografia ocidental definiu como Idade Média (aproximadamente entre os anos 900 e 1250 da Era Cristã ou Era Comum). “Em geral, associar o termo ‘medieval’ à África causa um estranhamento, porque a ideia de medievalidade está muito atrelada ao espaço europeu e ao chamado feudalismo, onde os efeitos da anomalia climática foram supostamente benignos”, explica o pesquisador da USP. No entanto, a anomalia climática medieval não foi um fenômeno exclusivamente europeu. No caso da África Subsaariana, emerge outra acepção do conceito, um tempo no qual o aumento da temperatura média global – que, na região, resultou em secas prolongadas – introduziu uma variável de vulnerabilidade para sociedades camponesas, que praticavam uma agricultura de subsistência. “O estudo comparativo das línguas bantu fornecerá o método para reconstruir o vocabulário voltado para a conceituação da fome, das estações e do ambiente, para a organização da produção e para a criação de vulnerabilidade e marginalidade, que frequentemente resultam de tempos de fome”, aponta Almeida. Uma situação como essa também tem um impacto em elementos rituais e simbólicos. É o caso da reconstrução do vocabulário adotado para designar um objeto ritual ou amuleto usado para manipular a chuva nas culturas bantu numa área que vai do Gabão a Angola. A forma hipotética reconstruída para a palavra original (marcada com um asterisco) é *lu-kándù, conforme mostra o infográfico abaixo. O trabalho do historiador busca romper com percepções da África como um ‘espaço de escassez’, com sociedades perpetuamente vulneráveis. Por outro lado, segundo Almeida, após os processos de independência, a partir da década de 1960, muitos nacionalistas acabam criando um tipo de mitologia oposta à narrativa colonial, imputando ao colonialismo todos os problemas posteriores. “Daí a importância de escapar dessas visões binárias, que descrevem ou a fome perpétua ou a superabundância, e de compreender a fome na história antiga da África como um processo histórico profundamente entrelaçado com as maneiras pelas quais os primeiros africanos construíram sistemas políticos, diferenciação social e estratégias de resiliência”, afirma. Ainda segundo ele, uma pesquisa nesses moldes pode ajudar a reformular as narrativas básicas sobre os tempos designados como pré-coloniais e consolidar uma noção de “Idade Média Global”. Não se pode esquecer que as línguas bantu estão mais perto de nós do que imaginamos. “O contato diário com os escravizados disseminou essa matriz linguística por todo o país. O português falado no Brasil é mais próximo do idioma de Angola e de Moçambique do que daquele de Portugal. É uma herança que moldou a sonoridade, o vocabulário e a gramática do brasileiro”, pontua Souza. “Os valores, sensibilidades e formas de pensamento africanas influenciaram toda a sociedade brasileira, e não apenas a população negra, resultando em uma identidade profundamente mestiça”, diz ela. Diversidade nos genes É claro que essa mestiçagem, em sentido estrito, também se reflete no genoma dos brasileiros. De acordo com Iscia Lopes-Cendes, do Departamento de Genética Médica da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), não é possível compreender plenamente a população brasileira sem conhecer melhor a diversidade genética africana. Segundo ela, nos últimos anos houve um crescimento importante das pesquisas genômicas envolvendo populações do continente, inclusive com a participação de grupos brasileiros. Isso aconteceu a partir do reconhecimento de que a maior parte dos bancos de dados foi construída com populações de ancestralidade europeia, o que limita o conhecimento na área e sua aplicação, especialmente no desenvolvimento da medicina de precisão para a população do Brasil. Para ampliar o que se sabe sobre essa diversidade, foi criado o projeto AGenDA (sigla para “avaliação da diversidade genética na África”), que vai sequenciar 750 amostras de DNA coletadas em Angola. “Essa análise será conduzida em colaboração com os pesquisadores angolanos, assegurando também o treinamento de cientistas locais ao longo do desenvolvimento da pesquisa”, conta a médica. Quanto mais representativa for a diversidade presente nos bancos de referência, mais precisos serão os diagnósticos, a interpretação de variantes de DNA e, no futuro, as aplicações da medicina de precisão. “O objetivo não é desenvolver uma medicina baseada em categorias populacionais, mas algo que represente adequadamente a variabilidade genética de toda a população brasileira”, aponta. Os estudos de genômica populacional ajudam ainda a compreender melhor a história da formação do Brasil. “A genética mostra claramente que não existe base científica para qualquer forma de discriminação baseada na origem geográfica ou na ancestralidade dos indivíduos”, destaca Lopes-Cendes. “Também é importante lembrar que a identidade de uma pessoa envolve história, cultura, pertencimento e vivências, aspectos que vão muito além do DNA. Minha contribuição é produzir conhecimento científico que torne a medicina mais precisa e mais representativa da diversidade humana, para que seus benefícios possam ser aplicados a toda a população, sem discriminação.” Outros nomes no mapa O crescimento das pesquisas sobre a África feitas por brasileiros também tem possibilitado reduzir as lacunas sobre a presença de personagens negros na história das ciências no século 20. E, se o oceano Atlântico se torna um rio que conecta dois continentes e suas histórias, como afirmou o historiador e diplomata Alberto da Costa e Silva (1931-2023), o continente africano pode ser comparado a um vasto oceano, de onde emergem novas possibilidades para o pensamento geográfico. Em Um rio chamado Atlântico: a África no Brasil e o Brasil na África, de 2003, Alberto da Costa e Silva descreve o oceano como um caminho de mão dupla, pelo qual circularam pessoas, técnicas, línguas e crenças entre os dois continentes. Um exemplo é a obra do professor e geógrafo nigeriano Gabriel Jimoh Afolabi Ojo (1929–2020). Em 1966, ele publicou Yoruba Culture: a geographical analysis (University of Ife e University of London Press), livro no qual analisa a relação entre o meio ambiente e a cultura iorubá. Ele utiliza uma abordagem inovadora ao destacar essa interação por meio de exemplos do mundo material e espiritual daquele povo, buscando demonstrar como o ambiente afeta ou modifica normas e práticas culturais. “Chama a atenção o fato de ele conseguir relacionar a dimensão geográfica do ambiente com o florescer da cultura iorubá”, destaca Guilherme dos Santos Claudino, professor do Departamento de Geografia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Presidente Prudente. Edson IkêA cultura iorubá é uma das principais raízes da cultura e identidade afro-brasileiras, presente tanto em nossa língua como na religiosidade e na gastronomia. Na opinião de Claudino, trata-se de um estudo que poderia ter sido aproveitado pela geografia brasileira, que só no final dos anos 1990 começou a se interessar pela cultura negra, afro-brasileira e africana de forma mais sistemática. Pouco conhecido, o livro de Ojo ainda não tem tradução no Brasil, mas Claudino tem feito esforços para recuperar o pensamento de outros especialistas africanos como ele. Em julho deste ano, chegou às livrarias o título A dimensão racial na história do pensamento geográfico: constelações Orí e nervuras da raça. Com quase 800 páginas, a obra traz os resultados iniciais da pesquisa de Claudino, que é apoiada pela FAPESP. O livro é o primeiro resultado do projeto de pesquisa, que tem como objetivo a construção de uma enciclopédia sobre a presença de geógrafos negros na história do pensamento de sua disciplina, do final do século 19 até a última década do século 20, no Brasil, nos Estados Unidos e em seis países da África (Uganda, Gana, Nigéria, Quênia, Moçambique e África do Sul). “A ausência de pessoas negras nas narrativas da história da geografia foi a inquietação que motivou meu interesse por revelar a participação, ou a razão da ausência, de homens e mulheres que, por outros caminhos, produziram conhecimento geográfico”, conta ele. “No caso da geografia, percebo um crescimento do interesse sobre a África especialmente nos últimos dez anos, quando vemos um ponto de inflexão na medida em que, sobretudo para os pesquisadores negros na universidade, não basta entender o racismo científico do passado, é preciso entender como os negros também tiveram contribuições intelectuais importantes”, afirma Claudino. Para ele, isso é fundamental para desmistificar estereótipos que resultaram em leituras parciais sobre um continente que tem mais de 50 países, cerca de 2 mil línguas e uma das maiores diversidades geográficas do planeta. “Encontramos análises elaboradas a partir de uma perspectiva crítica por parte de geógrafos africanos”, diz ele. Um dos primeiros professores universitários da África Oriental, por exemplo, foi o queniano Simeon Ominde (1924-1995), docente no Departamento de Geografia da Universidade de Nairóbi. Na década de 1960, ele desempenhou um papel fundamental na reestruturação do sistema educacional queniano após a independência, lançando as bases para a reforma que eliminaria o legado colonial segregacionista na organização escolar. A consolidação da universidade como um espaço legítimo de pesquisa sobre a África em todas as áreas do conhecimento abre espaço para questionamentos antes negligenciados. Para Almeida, responder a essa demanda é fundamental para superar um binarismo que se traduzia na ideia de que a África não possuía história ou, indo na direção oposta, em uma exaltação de seus grandes reinos e impérios, como Gana (que não corresponde ao país atual com esse nome) e Zimbábue. “Acredito que a principal contribuição dessa vertente de pesquisa é a normalização do continente africano nos manuais didáticos e no pensamento historiográfico, superando a dicotomia entre a condenação e a celebração”, resume ele. E, sob essa perspectiva, justifica-se a investigação de temas sensíveis como a fome e a escravidão. “Evidenciar essas dinâmicas não diminui a história africana. Pelo contrário, confere-lhe densidade humana”, diz. “Longe de buscar a polêmica vazia, tais conceitos humanizam o processo histórico ao demonstrar que os sujeitos agem em meio a tensões e ambiguidades, seja na Europa do século 19, seja na África dos séculos 3 a 5. Resgatar essas complexidades é um compromisso republicano e democrático.” Republicar