Quanto mais desigual, mais velho
25 Oct, 2026
Quanto mais desigual, mais velho Menos oportunidades de estudo e menor renda aceleram o envelhecimento, segundo pesquisa Envelhecer não é igual para todos. Quem tem menor renda e menos oportunidades apresenta o envelhecimento cerebral acelerado, segundo pesquisa publicada na revista científica Nature Medicine, que avaliou dados de 161.981 participantes em 40 países, incluindo o Brasil. Os resultados do estudo questionam a ideia tradicional de que o envelhecimento depende apenas de fatores individuais, como genética e hábitos de vida, e destacam também a influência das condições sociais e do ambiente em que as pessoas vivem. A pesquisa foi desenvolvida por 41 cientistas, entre eles dois brasileiros, Eduardo Zimmer e Wyllians Borelli. Segundo os pesquisadores, o envelhecimento acelerado pode estar relacionado a fatores estruturais, como baixos níveis de renda, exposição à poluição do ar e desigualdade de gênero. Questões relacionadas à migração, à falta de representação política, às restrições à liberdade partidária e aos direitos de voto, além da fragilidade das instituições democráticas, também podem contribuir para esse processo. “Você envelhece conforme as oportunidades que recebe na vida. Envelhecer com mais saúde e com dignidade depende de políticas públicas; não é um esforço apenas individual. A pergunta que fica é se a população está envelhecendo ou apenas sobrevivendo?”, questiona o ex-diretor do Departamento de Envelhecimento e Curso de Vida da OMS (Organização Mundial da Saúde), Alexandre Kalache. O médico gerontólogo destaca o aumento da expectativa de vida nas últimas décadas. No Brasil, esse indicador alcançou 76,6 anos em 2024, enquanto, em 1940, era de apenas 45,5 anos, representando um avanço de 31,1 anos. Entretanto, embora esse progresso represente uma conquista social e da saúde pública, o especialista alerta que a maior longevidade não garante condições dignas de envelhecimento a todos os indivíduos, uma vez que as desigualdades sociais ainda comprometem a qualidade de vida de muitos idosos. "O local onde uma pessoa vive não deveria determinar se ela terá um envelhecimento saudável ou marcado por dificuldades. É fundamental garantir, desde o início da vida, acesso igualitário a serviços essenciais, como saúde, transporte e, principalmente, educação. Promover qualidade de vida e oportunidades para todos é indispensável para assegurar um envelhecimento digno, sem condenar parte da população a uma velhice marcada pelo sofrimento”, reforça. REALIDADES No Grande ABC, 121.318 idosos (23% do total de 529.763 pessoas com mais de 60 anos) estão cadastrados no CadÚnico (Cadastro Único para Programas Sociais) – sistema do governo federal que identifica as famílias de baixa renda no Brasil e serve de porta de entrada para programas sociais. Desse total, 15.488 (12,8%) não sabem ler ou escrever. Aos 65 anos, a doméstica Raquel Leone Vidal de Oliveira, moradora do Parque São Bernardo, enfrenta uma rotina marcada por dores crônicas na perna, consultas médicas devido a um glaucoma no olho esquerdo e a luta para conseguir o BPC (Benefício de Prestação Continuada). Sem aposentadoria, ela é mãe de cinco filhos e também ajuda a cuidar dos 12 netos. Raquel mudou-se para o Estado aos 15 anos, acompanhada de seus dois filhos e do então companheiro, deixando Itabuna, município localizado na Bahia. Sem oportunidade de estudar, não aprendeu a ler nem a escrever e dedicou a vida ao trabalho doméstico. Após um acidente, precisou se afastar e não conseguiu se aposentar. “Meu maior desejo é ter saúde para poder trabalhar. Me dói ver meus netos querendo alguma coisa e não poder comprar. Choro de dor. Tem dias que não consigo nem sair da cama”, lamenta ela. Caso consiga o benefício, Raquel deseja melhorar as condições da própria casa. “Quero poder cimentar os cômodos”, conta. Sem dinheiro para atividades de lazer, ela tem na televisão um dos poucos passatempos. Também lamenta não ter tido a oportunidade de estudar e realizar o sonho de ser cozinheira. Hoje, seu maior desejo é acompanhar o crescimento dos netos. “Depois, posso descansar.” Apesar de ainda não ter chegado à terceira idade, Marcelo Hakihito Adati, 54, já cultiva hábitos que contribuem para um envelhecimento saudável. Morador do bairro Olímpico, em São Caetano, ele se mudou para a cidade em busca de mais qualidade de vida. Atualmente, mantém uma rotina ativa, com atividades físicas ao longo de toda a semana nos equipamentos municipais, incluindo pilates, ginástica, musculação e beach tennis. “Sempre cuidei da alimentação. Desde criança, jogo beisebol, então estou acostumado a praticar esportes. Sei da importância de cuidar da saúde para ter longevidade”, conta. Além dos benefícios para o corpo, a prática de atividades em grupo contribui para o bem-estar social, outro aspecto importante para um envelhecimento saudável. “Fiz muitas amizades nessas atividades. Realmente, a sociabilidade faz toda a diferença”, destaca Adati, que não tem filhos. Para aproveitar essa fase com tranquilidade, Adati também buscou construir uma vida financeira estável. Profissional da área de TI (Tecnologia da Informação), hoje se dedica aos investimentos no mercado financeiro e desfruta de uma espécie de pré-aposentadoria. Adati aconselha os mais jovens a priorizar os estudos para garantir maior estabilidade no futuro. “A educação é fundamental para ter segurança financeira na terceira idade e aproveitar essa fase da vida com mais tranquilidade”, afirma. PRIVILÉGIOS O médico Alexandre Kalache é referência internacional nos estudos sobre o envelhecimento, com mais de 40 anos de atuação acadêmica e social. Formado em Medicina no Brasil, realizou mestrado e doutorado no Reino Unido e passou por instituições como a Universidade de Oxford e a London School of Hygiene and Tropical Medicine, onde se dedicou a pesquisas sobre o envelhecimento. Durante sua atuação na OMS, participou da formulação do Marco Político do Envelhecimento Ativo e da criação da rede de Cidades Amigas do Idoso. Atualmente, preside o ILC Brasil (Centro Internacional de Longevidade). Reconhecido internacionalmente pela defesa dos direitos das pessoas idosas e pelo combate ao etarismo, Kalache, aos 80 anos, compartilha suas experiências e reflexões sobre os desafios do envelhecimento na sociedade contemporânea e as perspectivas para o futuro. “Envelhecer é muito bom para quem tem privilégios, mas ainda existem muitos desafios a serem superados. Espero que aquilo que hoje é um privilégio se torne um direito de todos, para que as próximas gerações possam viver a velhice com qualidade de vida, dignidade e pleno acesso aos seus direitos”, finaliza o médico. SÉRIE Esta é a terceira matéria da série Grande ABC 60 +, veiculada aos domingos, que aborda a inversão etária na região. A última matéria será divulgada em 1º de novembro. É preciso viver melhor, diz geriatra De acordo com o modelo de envelhecimento ativo da OMS (Organização Mundial da Saúde), a qualidade de vida após os 60 anos depende de quatro pilares construídos ao longo da vida: saúde, conhecimento, capital social e segurança financeira. Cada um desses fatores desempenha um papel fundamental na promoção do bem-estar e da autonomia na terceira idade. No entanto, em países desiguais como o Brasil, as disparidades sociais dificultam a construção desses pilares ao longo da vida, conforme explica a médica geriatra e diretora da SBGG-SP (Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia – Seção São Paulo), Amanda Lagreca de Azevedo. “A desigualdade no acesso à saúde, desde o início da vida, compromete o envelhecimento, especialmente pela falta de informação, medicamentos e tratamentos adequados. Saúde não significa apenas ausência de doenças, mas também a capacidade de manter a autonomia e realizar as atividades cotidianas na terceira idade”, diz a médica, que atua no Hospital das Clínicas da FMUSP (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo). Amanda também reforça a importância dos demais fundamentos. Segundo ela, o conhecimento vai além da educação formal, cujo acesso também é comprometido pela desigualdade social. “É também sobre as experiências vividas ao longo da vida, sobre conhecer seus direitos para não cair em golpes e conseguir se manter atualizado com o avanço da tecnologia.” Já o capital social está relacionado à manutenção dos vínculos com amigos, familiares e outros grupos. “O pilar mais afetado, e que impacta diretamente todos os outros, é a segurança financeira. Pessoas de baixa renda, muitas vezes, recorrem ao trabalho informal ao longo da vida e acabam interrompendo as contribuições previdenciárias, o que compromete o futuro. Em outros casos, toda a família depende da aposentadoria do idoso, que, mesmo sem condições físicas, precisa continuar trabalhando. Por isso, não basta viver mais; é preciso viver melhor”, reforça a médica, que destaca a importância de políticas públicas e de mudanças estruturais para garantir que todos tenham acesso às condições necessárias para um envelhecimento saudável.