“Jogaram tinta, responderemos cantando”: artistas ocupam Clube da Esquina após vandalismo e pichações
25 Oct, 2026
Artistas mineiros ocuparam neste sábado a esquina das ruas Divinópolis e Paraisópolis, em Santa Tereza, Belo Horizonte, após o memorial do Clube da Esquina ser alvo de pichações com tinta vermelha. A resposta veio em forma de música: “Eles jogaram tinta. Nós vamos responder cantando”. Eu acabei de acordar de camisola no Cosme Velho, olhei o termômetro marcando 23°C, vi que o domingo vai ficar ameno, com máxima de 25°C e chuva, e já abri a janela para ouvir essa história direito. Porque tem gente que acorda e decide manchar memória; tem gente que pega violão e devolve cultura. O ato começou às 10h e reuniu músicos diante de um dos endereços mais sagrados da música brasileira. Toninho Horta, Fernanda Takai, Renegado, Titane, Paulinho Santos, do Uakti, Ye Borges, Luca Borges, filho de Lô Borges, e outros nomes foram chamados para defender o lugar. Eu fui até a cozinha botar o café para passar e fiquei pensando: pichar um memorial do Clube da Esquina é querer comprar briga com Milton, Lô, Minas Gerais, a MPB e qualquer pessoa que já ouviu “Clube da Esquina nº 2” com o coração meio aberto demais. As pichações aconteceram na sexta-feira e provocaram indignação entre artistas ligados ao movimento. Não há informação, até o momento, sobre quem fez o ataque. Mas os músicos não esperaram a tinta secar para transformar a agressão em resposta coletiva. Enquanto o café enchia a casa, eu achei a frase dos organizadores uma beleza de tapa sem levantar a mão: “Vamos responder cantando”. Porque arte tem essa vantagem sobre o vandalismo, meu amor. A tinta vermelha acaba; uma canção atravessa década, cidade, governo, desamor e até domingo de chuva. O Clube da Esquina nasceu dos encontros entre músicos em Belo Horizonte e projetou nomes como Milton Nascimento e Lô Borges a partir dos anos 1970. Misturando MPB, rock, jazz e música latino-americana, o movimento fez daquela esquina uma referência cultural que vai muito além de uma placa ou parede. Eu voltei para a sala com minha xícara e deixei o samba quietinho por alguns minutos. Não é toda manhã que a gente vê uma notícia ensinando, com melodia e coragem, que patrimônio cultural não se defende só com tinta nova: se defende com presença, voz e memória.